Quinta-feira, Março 30, 2006

Lula e a China

A visão de política comercial de Lula é invejável. Isso ficou óbvio mais uma vez ontem, em seu discurso na Fiesp. Disse o Guia Genial: “Eu fui criticado porque tomei a decisão de reconhecer a China como economia de mercado. E tomei essa decisão porque tenho consciência de que, ou nós colocamos a China no âmbito da OMC e passamos a envolvê-la nas discussões que faz o resto do mundo, ou nós deixamos a China de lado e ela vai ocupando os espaços que ocupa sem pedir licença”.
Muito esperto esse Lula, não é mesmo? A questão é que a China entrou na OMC em 2001, três anos antes de o Brasil reconhecê-la como economia de mercado. O curioso é que não é a primeira vez que ele comete esse erro. Ninguém o informa de que ele disse besteira? Se bem que, para quem acha Napoleão foi à China, essa não foi das piores.
O discurso de ontem foi muito divertido. Mas, como as pessoas só lêem algumas partes, têm uma idéia muito pálida do caos que é a cabeça do Guia Genial. Quem for masoquista e quiser ler a íntegra do pronunciamento na Fiesp, é só clicar aqui.
Falando a uma platéia de empresários italianos, Lula não os poupou de suas metáforas sofisticadas, num discurso cheio de dicas de auto-ajuda. Um dos meus trechos preferidos: “E a gente só consegue chegar a esse ponto se a gente pensar de forma positiva, se a gente acreditar que é possível, porque muitas vezes nós temos um prato de comida para comer, com tudo bem feito, tempero bom e, ao invés de agradecermos a Deus por aquele prato, a gente prefere ficar reclamando do que não tem no prato.” Isso é que é estadista



As maravilhas da televisão aberta

Eu já me decidi: vou cancelar a assinatura da TV a cabo. Em que canal pago eu assistiria a uma entrevista coletiva do Padre Pinto, como a que vi na semana passada, no programa da Luciana Gimenez? Quem não viu perdeu uma das grandes discussões de idéias da televisão brasileira. Padre Pinto (ser zecélsico, na definição de mestre Ruy Goiaba) foi colocado contra a parede (ops) por doutora Havanir, Núbia Óliiver (não é erro de digitação, esse é o nome artístico – ou profissional? - dela), um bispo evangélico e um outro sujeito desconhecido que me pareceu adepto da mesma orientação sexual do entrevistado.
Padre Pinto apareceu com o cabelo acaju, camiseta e tênis vermelhos e uma calça branca apertada. Ah, o homo-sacerdote também estava maquiado, com brinco na orelha esquerda e pulseiras que deixariam o Clóvis Bornay com inveja. Na maior parte do programa, Padre Pinto foi humilhado pela doutora Havanir e pelo bispo, que atacaram sem dó sua visão heterodoxa da Igreja Católica, sua proximidade com as afro-religiões como o candomblé e seu visual transformista. Mas Padre Pinto não se abalou. Sem perder o rebolado, confirmou sua simpatia pelos afrocultos, afirmou ser fã de Raul Seixas, classificou-se como maluco beleza e disse não ter beijado Caetano Veloso na boca.
Houve também discussões teológicas entre o Padre Pinto e o bispo evangélico. Nosso herói foi acusado pelo bispo de não seguir o único Deus verdadeiro e prestar homenagem ao Deus de outras religiões. Isso levou à intervenção da gostosa profissional Núbia Óliiver, que atuava em defesa de Padre Pinto com firmeza: “Mas peraí. Há apenas um Deus ou cada religião tem o seu Deus?”, questionou ela, de forma irônica. Núbia ainda defendeu o direito do Padre Pinto de fazer o que quiser, porque o importante é ajudar os outros. Quem quer assistir Seinfeld se pode ver um debate desse nível de graça?

PS: No programa de ontem, Alexandre Frota foi o entrevistado de Luciana Gimenez. Ele desmentiu que seja amigo da transexual Renata Finsk e que tenha tido um caso com ela. É ou não é o melhor programa da televisão brasileira?



Domingo, Março 26, 2006

Que legal a geléia geral II

Para gente como a dona Elke, mulher é sempre competente, negro é sempre lindo e gay é sempre sensível. A culpa de qualquer coisa costuma ser do branco heterossexual que estiver mais perto.
Para mudar esse quadro, está na hora de uma campanha publicitária para melhorar a imagem da categoria. Acho que, se receber uma grana boa, o Nizan Guanaes aceita a tarefa de mostrar ao mundo que há muito marmanjo boa gente que tem pouca melanina e não é caubói. Uma outra linha de campanha é dizer que nem toda mulher é competente, nem todo negro é bonzinho e nem todo gay é um artista talentoso. Mas é melhor não ir por esse caminho: o Conar acabaria vetando



Sábado, Março 25, 2006

Que legal a geléia geral

Acabei de ouvir um trecho muito interessante de uma entrevista da Elke Maravilha na rádio MEC. O pai, russo, falava 14 línguas sem sotaque. Ela fala, aparentemente, infinitas, incluindo várias mortas. Elke discorreu sobre como o branco brasileiro é cafona, e o negro elegante. O entrevistador - "mas é claro que sim, mas é claro que sim" - vibrou. E aí ela disse que Stalin era horrível, só trevas. Já Hitler, adendou Elke, tinha um "lado de luz". O entrevistador - "hã hã, que que eu faço?" - perguntou "que lado é esse, que eu não conheço?". E ela explicou que Hitler pelo menos tratava bem do seu povo, enquanto Stalin matava de fome o seu. O entrevistador -"humm, será que eu tenho que contestar? será que vai pegar mal para mim?"- achou mais sábio mudar de assunto. Elke ainda tá lá, pontificando sobre o homem e o universo. E o entrevistador, uhn hun, uhn hun, uhn hun

P.S: Ah, esqueci a explicação histórica que Elke deu para o fenômeno preto elegante/branco cafona no Brasil. Nas nossas origens, da branquelada, só veio a "escória". Já dentre os negros vieram reis e rainhas. Uhn hun, Uhn hun



Sexta-feira, Março 24, 2006

O sucesso não ocorre por acaso II

Bem, durante os longos anos do meu pós-doutorado em ciências cognitivas na Universidade de Vladivostok, aprendemos que, em média, os auto-confiantes são menos inteligentes que os inseguros. Isto é, se for possível medir objetivamente o grau de auto-confiança, tomando-se aleatoriamente duas pessoas, a probabilidade da menos auto-confiante ser mais inteligente que a mais auto-confiante é maior do que vice-versa. Recentes pesquisas, por outro lado, indicam que, tomando-se ao acaso duas pessoas com o mesmo grau de inteligência, a mais auto-confiante será mais bem sucedida em diferentes tipos de tarefa a que se dedique do que a menos auto-confiante. Isto levou uma corrente de cientistas cognitivos a sugerir que a inteligência e a auto-confiança foram características que evoluíram paralela e competitivamente na formação do homo sapiens. Vladimir Naborabowsky, o famoso neuro-biólogo russo, chegou a propor a existência de duas espécies distintas: o homo sapiens e o homo confidentis (por favor, ajudem-me, isto deve estar errado em latim, mas é que eu não consigo me lembrar a forma correta). Esta última espécie compreende hoje presidentes analfabetos, ministros-cantores e blogo-pagodeiros.
Mais informações em www.uv.edu/naborabowsky/research/theconfidencepapers324.asp?Reg=8

P.S: Não por falar nisto, já que o c.u. não tem nada a ver com as calças, lembrei-me hoje de um dos meus aforismos prediletos do Anacleto de Avignon, de quem não falamos há muito tempo:

"A normalidade não é o contrário da aberração, mas sim o ponto médio entre duas aberrações opostas"



Quinta-feira, Março 23, 2006

O sucesso não ocorre por acaso

Ter autocrítica não está com nada. Olhe à sua volta: o mundo é de quem tem auto-estima lá em cima. Sujeitos como o Lair Ribeiro estão certos. Essa história de que é importante ser cético e ter consciência das limitações apenas atrapalha a carreira.
Se fizesse uma análise ponderada e crítica de sua capacidade, Lula não tentaria nem ser síndico de prédio. Como Pelé e Gilberto Gil aceitaram ser ministros, mesmo sendo totalmente despreparados para o cargo? Só com muita auto-estima – ou sem nenhuma auto-crítica. E a Tati Quebra Barraco, como é que pode cantar? A mulher emite guinchos assustadores, é feia como o demônio e mesmo assim vira pop star. Vai ter auto-estima assim lá no inferno.
Por isso, eu já me decidi. Vou comprar todos os livros de auto-ajuda que eu encontrar pela frente. E, toda manhã, vou me olhar no espelho e dizer: Eu posso! Vou aceitar sem hesitações o próximo convite que eu receber para ser líder de um grupo de pagode



Saúde sueca fracassa

SISTEMA DE SAÚDE SUECO NÃO ACABOU COM DOENÇA
23 de março de 2006
Ingrid Stökke
Estocolmo (Scandinavian News) - O governo social-democrata do primeiro-ministro Olaf Trölla pode cair a qualquer momento, depois que uma comissão de notáveis organizada pelo parlamento sueco concluiu que oito décadas do sistema nacional de saúde não reduziram significativamente a incidência de doenças no país. Comparado com os Estados Unidos, onde a a saúde é privada, os suecos continuam a ter índices semelhantes de câncer, doenças cardíacas, e mesmo enfermidades leves, como resfriados e problemas gástricos. Segundo o relatório final da Comissão, que provocou furor na opinião pública da Suécia, "apesar de o país ter o sistema público de saúde mais abrangente e caro do mundo desenvolvido, os suecos continuam a ficar doentes, como ocorre em países que investiram muito menos nesta área".

DISTRIBUIÇÃO DE DINHEIRO NÃO ACABA COM MISÉRIA
23 de março de 2006
Chico Otavio
(O Globo) - O dinheiro empregado em programas públicos de transferência de renda no Brasil está chegando às mãos de quem precisa, mas fazer parte da lista de quase 39 milhões de brasileiros favorecidos por eles ainda não significou estar livre da miséria. A primeira pesquisa do IBGE sobre o assunto, divulgada ontem, mostrou que 38% dos jovens de 15 a 17 anos e 36% das pessoas acima dos 60 anos de famílias favorecidas pelos programas estavam trabalhando para reforçar a renda doméstica.


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UGANDA NÃO TRATA 50% DOS PORTADORES DE HIV-AIDS
23 de março de 2006
Ologosambo Olekeé
Lagos (African Press) - Motins populares foram dispersos hoje à bala em Kampala, capital da Uganda, depois que o governo reconheceu que 50% dos portadores de HIV-Aids no país africano não recebem tratamento anti-retroviral. Uma multidão enfurecida tentou invadir o palácio do governo, e entrou em confronto com a polícia, com um saldo de 13 mortos. O governo do presidente Idi Amon RaRa prometeu suspender em poucos dias o tratamento da parcela de 50% dos ugandenses com HIV-Aids que recebe anti-retrovirais, corrigindo a injustiça, e deixando a população inteiramente sem acesso aos medicamentos, como a maior parte dos países africanos. Uganda foi pioneira em oferecer remédios gratuitos para a população com Aids, e, com ajuda internacional, elevou de zero para 50% a cobertura em dois anos. Agora, porém, sob pressão da opinião pública, a população de Uganda será democraticamente privada de qualquer tratamento.

PROGRAMAS SOCIAIS DEIXAM DE FORA METADE DOS MISERÁVEIS
23 de março de 2006
(Folha de São Paulo) - Estudo do IBGE releva que metade dos miseráveis do país não é atendida por programas sociais de transferência de renda, como o Bolsa Família. O trabalho, feito a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2004, mostra que só 50,3% das famílias com renda per capita inferior a 1/4 do salário mínimo (R$ 65 em 2004) recebiam benefícios. Da populção, 21,4% (39 milhões) eram beneficiados em 2004. Dos 8 milhões de famílias atendidas, apenas 1,1% ganhava mais de dois mínimos (R$ 520) per capita



Segunda-feira, Março 20, 2006

Homenagem ao sexo frágil

É inevitável. Todo dia internacional da mulher (eu deveria usar maiúscula?) algum apresentador ou político aparece na televisão e diz: “Está na hora de o Brasil ser governado por uma mulher”. Em ano eleitoral, a frase pipoca em todo canto. Eu mesmo vi mais de um programa em que ela foi dita com entusiasmo. Quantas reportagens vocês leram, viram ou escutaram neste mês sobre mulheres competentes e bem sucedidas? Eu perdi a conta. Acho curioso que ninguém fale do oposto. É verdade que nenhuma mulher comandou o Brasil, mas muitas já chegaram a cargos importantes nos últimos anos, e várias tiveram desempenho catastrófico. Eu vou citar cinco.
A primeira é Zélia Cardoso de Mello. Além de ter sido uma das idealizadoras do confisco, teve um caso com Bernardo Cabral e casou com Chico Anísio – tudo bem, ela era jogo duro, mas o Chico Anísio?
A segunda? Marta Suplicy. Eleita como símbolo da modernidade do PT, fez um administração de inspiração malufista. Estourou as contas públicas e deu prioridade a obras discutíveis. Como desculpa para sua derrota, inventou a história de que foi vítima de preconceito. Ela esqueceu que os paulistanos elegeram uma nordestina em 1988, um político com folha corrida em 1992, um negro em 1996 e uma sexóloga (ela mesma) em 2000. Não colou.
A terceira é Benedita da Silva. Foi governadora do Rio e ministra, tendo como únicos méritos ser negra, mulher e favelada. Aos poucos, descobriu-se que era adepta do nepotismo e incompetente. Quando ministra, foi à Argentina para um encontro religioso com dinheiro do governo.
Depois, há Roseana Sarney. Quase foi candidata a presidente em 2002, quando a foto de uma pilha de dinheiro sem origem comprovada destruiu as pretensões da filha de um dos piores presidentes que o Brasil já teve. Governou o Maranhão, um dos Estados mais pobres do país, comandado por seu grupo político por séculos.
Por último, Rosinha Garotinho. Não tem o menor preparo para comandar uma padaria, mas foi eleita governadora do Rio por ser mulher de um político populista que usa a religião para conquistar votos. Colocou o marido em cargos-chave da administração, numa clara demonstração de que não manda nada.
Por isso, em vez de dizer que está na hora de o país ser governado por uma mulher, eu defendo uma idéia mais esquisita: está na hora de o país ser governado por alguém competente, honesto e com perfil de estadista. Pode ser homem, mulher ou transexual. Não é mais razoável?



Aquele abraço II

Em 1986, o naturalista Augusto Ruschi, seriamente enfermo, em consequência de seqüelas de esquistossomose e malária, e alegadamente contaminado por veneno de sapos dendrobatas, submeteu-se à famosa "pajelança", ritual indígena no qual foram utilizadas ervas e raízes com poderes curativos.
No Parque da Cidade do Rio, com grande cobertura da mídia, a pajelança teve como ponto alto a cena em que o cacique Raoni e o pajé Sapaim expeliam fumaça de cigarros de folhas na cara de Ruschi, massageavam-no com ungüentos e entoavam cânticos indígenas.
Lembro-me bem do episódio, e, principalmente, de como boa parte da opinião pública do país, conduzida por jornalistas, articulistas e intelectuais, emocionou-se e acreditou para valer que os índios curariam Ruschi de males para os quais a medicina ocidental não tinha resposta. O naturalista morreu logo depois, de cirrose hepática, e sem que tivessem sido encontrados em seu corpo quaisquer traços de veneno de sapo ou de outros animais.
Para mim, a pajelança do Ruschi é emblemática de um certo tipo de comportamento coletivo nosso, no qual, numa espécie de transe, a nação se convence de que, de uma forma mágica, na linha de "o melhor do Brasil é o brasileiro", vamos realizar coisas prodigiosas, mostrar ao mundo que temos respostas para grandes problemas da humanidade que jamais foram cogitadas, que trazemos dentro de nós a semente de transformações revolucionárias, etc, etc.
O plano Cruzado, por exemplo, foi a nossa pajelança econômica. Provamos aos gringos cinzentos e repressores que era possível acabar com a inflação e deslanchar um fabuloso espetáculo de crescimento sem nenhuma dor, sem nenhuma restrição fiscal, sem nenhum juro alto, mas simplesmente botando para funcionar o entusiasmo e a energia de um povo alegre e criativo.
A eleição de Lula, por sua vez, foi a pajelança política. Elegendo-se um pobre puro, saído das entranhas da digna miséria deste povo maravilhoso, o sistema político podre iria se regenerar, a corrupção seria exterminada, e o Brasil mostraria enfim que um outro mundo é possível, uma Terceira Via mulata e morena, plena de dinamismo econômico, alegria de viver e quadris balançantes.
Em todos estes episódios, uma euforia inebriante toma conta do país, e a gente quase chora sozinho, andando na rua, ao pensar que enfim - enfim! - o mundo vai nos dar o justo valor. E sempre, inevitavelmente, uma ressaca rancorosa e derrotista segue-se ao delírio megalômano, depois do fracasso óbvio de idéias e projetos concebidos na confusa gelatina do miolo mole nacional.

Tudo isto para dizer que a candidatura do Gilberto Gil ao governo do Rio de Janeiro - meio que a idéia de que uma abordagem tropicalista seria a solução para a barbárie infernal que progressivamente toma conta da cidade - é apenas mais uma pajelança, e das mais fraquinhas



Sexta-feira, Março 17, 2006

Aquele abraço

A crise no Rio de Janeiro é grave. Depois da seqüência Garotinho, Benedita e Rosinha, a esperança de boa parte da elite intelectual do Estado é que Gilberto Gil se candidate ao governo. Perto do populismo de Garotinho e Rosinha e da incompetência de Benedita, talvez Gil pareça um Churchill, mas convenhamos: se o pai de Preta Gil é realmente tido como o salvador da pátria, a situação do Rio é pior do que eu pensava. Na Folha de hoje, Nelson Motta escreve um artigo conclamando Gil a se lançar ao cargo, elogiando com entusiasmo sua gestão no ministério da Cultura.
Um sujeito que só aceita ser ministro se puder continuar a fazer shows deixa claro quais são suas prioridades. É ridículo que Lula tenha cedido ao seu apelo, e mais ridículo ainda que a imprensa não tenha caído de pau em cima dos dois por causa disso. Se for governador, Gil também vai se afastar o cargo por alguns dias para cantar suas músicas, ganhar uma grana extra e complementar o orçamento? E no carnaval ele irá para Salvador tocar no seu trio elétrico, sempre patrocinado por uma empresa privada?
Em resumo, a esperança da intelligentsia do Rio é um músico que não tem nenhum pudor em misturar o público e o privado. Bonito, não?



Quinta-feira, Março 16, 2006

O dragão da massa encefálica contra o santo guerreiro

A eleição deste ano promete. Lula e Alkckmin dão seguidas mostras de que estão à altura do Brasil. O Guia Genial, em resposta a um protesto do PSTU: "A nossa massa encefálica é mais inteligente do que vocês pensam". O picolé de chuchu, num momento TFP: "A pátria são as famílias, a religião, os costumes, a tradição". Eu mal posso esperar pela campanha. Não sei se vou conseguir acompanhar o nível da batalha de idéias que os dois vão travar



Quarta-feira, Março 15, 2006

Vigiar e punir

O Brasil é o país da avacalhação. Talvez seja isso o que define o brasileiro: a capacidade de avacalhar tudo e todos. Quer um exemplo? A recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de considerar inconstitucional que os condenados por crime hediondo cumpram toda a pena em regime fechado. Com a medida do STF, o sujeito condenado por estupro, tráfico de drogas ou homicídio qualificado pode requerer a progressão de regime depois de ficar apenas um sexto da pena em cana. Sim, eu sei que cada caso será examinado por um juiz, o que, em tese, deve impedir que uma leva de criminosos perigosos ganhe a liberdade.
Mas eu sou cético quanto a isso. Não duvido que a combinação de um comportamento exemplar na cadeia e bon$ advogados seja suficiente para que um traficante assassino consiga facilmente o regime semiaberto.
Mas o ponto fundamental é outro: crimes graves merecem penas duras. Eu acredito no poder de dissuasão de uma punição severa. Há quem argumente que a lei dos crimes hediondos não ajudou a reduzir a criminalidade. Mas o problema não é a ineficácia de penas duras, e sim a impunidade elevada. No Brasil, uma parcela ridícula dos crimes é resolvida. Se a polícia fosse mais eficiente, uma parte maior dos criminosos iria para a cadeia e, se tivesse cometido um crime hediondo, ficaria mais tempo no xilindró. Com isso, se o risco de ser preso fosse maior e as penas fossem mais duras, o sujeito tenderia a pensar duas vezes antes de cometer um crime hediondo.
Ah, mas há muita gente presa no Brasil, afirma o senso comum. Os números, porém, não confirmam isso. As penitenciárias brasileiras são lotadas e desumanas, mas o país não tem muitos presos em termos relativos. Segundo o pesquisador Ib Teixeira, em 2002 o Brasil tinha 130 presos por 100 mil habitantes, enquanto o Canadá tinha 500 e a Noruega, 450. Em resumo, mesmo sendo bem menos violentos que o Brasil, os dois países têm proporcionalmente mais gente em cana.
Em artigo publicado hoje na Folha, o historiador Boris Fausto escreve que “é necessário encarar a punição por crimes graves principalmente como castigo, deixando em segundo plano a ressocialização utilitária e outros argumentos. Vista a questão sob esse ângulo, pouco importa que o rótulo de ‘crime hediondo’ permaneça ou não. Importa, sim, que praticantes de crimes de homicídio qualificado, latrocínio, extorsão mediante seqüestro, atentado violento ao pudor e outros mais cumpram integralmente suas penas em regime fechado.” Eu assino embaixo



Sexta-feira, Março 10, 2006

A vingança dos nerds

Ser bom aluno pega mal, pelo menos no Brasil (em outros países também é assim?) Tirar boas notas pode deixar a sua mãe orgulhosa, mas é uma das coisas com menos sex appeal que existem. Eu falo por experiência própria: fui um aluno brilhante até o colegial, e isso não facilitou em nada minha vida sexual - pelo contrário. Eu não era visto como nerd porque jogava futebol razoavelmente bem, o que permitia que eu tivesse outros amigos além dos gordinhos estudiosos de óculos. De qualquer modo, posso dizer que não era o mais popular da escola. O esforço intelectual não oferece muitas recompensas na infância e na adolescência, eis a verdade, meus amigos.
Tem gente que desiste de estudar a sério por causa dessa impopularidade. Eu conheci mais de um gordinho CDF que adotou o seguinte raciocínio: se eu tirar notas piores, provavelmente vou apanhar apenas porque sou gordo, e não porque sou gordo e bom aluno.
Para combater esse problema, seria importante que o cinema, por exemplo, mostrasse quem se dedica com afinco aos estudos de forma mais glamourosa. Uma sugestão é fazer um filme descaradamente inspirado nos Diários de motocicleta. Mas, em vez de uma viagem de moto pela América Latina, o protagonista empreenderia uma jornada pelos campi das universidades da Ivy league, devidamente acompanhado pelos pais. No percurso, o jovem nerd formaria suas convicções sobre o mundo e sobre si mesmo, terminando o filme feliz por ter se formado no colegial com média 9,88.
Outra idéia: num país em que estudar é desnecessário e o que dá dinheiro é ser jogador de futebol ou músico de pagode, alguns jovens que cultuam o conhecimento participam de intermináveis batalhas intelectuais. Em garagens subterrâneas, promovem torneios clandestinos, que se arrastam por dias, inspirados em programas de televisão como Quem sabe sabe e em jogos como Master - qualquer semelhança com O clube da luta não é mera coincidência.
Deixo essas sugestões no ar. Quem sabe algum ex-nerd bem sucedido no mercado financeiro não topa financiá-las?



Los pasionarios II

Você vai achar que eu sou pervertido, mas acompanho com interesse a disputa, por mais aborrecidos que sejam os dois. Pelo que eu li, fontes tucanas dizem que o candidato será Alckmin. Não quero dar uma de mãe Dinah, mas acho que, se essa decisão se confirmar, estará aberto o caminho para mais quatro anos do Guia Genial no poder

PS: Sabe uma coisa que desperta os meus mais baixos instintos? Jornalista que escreve "tucanato". Mas é possível piorar. Eu conheço um que fala "tucanato" em conversa de bar. Não vou dizer quem é, mas garanto que é um dos sujeitos mais chatos de todos os tempos



Los pasionarios

O suspense mais entediante de todos os tempos: Serra ou Alckmin, quem será o candidato tucano?



Que papo chato...

Vejam esta noticiazinha desimportante do "Jornal do Senado", que eu peguei na edição online da digníssima Casa:

Três projetos importantes para o futuro da Previdência Social foram acolhidos ontem pela Comissão de Assuntos Sociais. A proposta de Rodolpho Tourinho que estabelece a inclusão previdenciária das donas-de-casa obteve aprovação unânime, assim como a de Paulo Paim que acaba com o fator previdenciário, cálculo criado pela reforma da Previdência para estimular os segurados a retardar sua aposentadoria.

Coisa chata, não é? Duvido que qualquer articulista de jornal, intelectual ou formador de opinião perca tempo comentando um trequinho maçante como este. Pena que o "fim do fator previdenciário" que está aí, esta obscura tecnalidade, signifique um aumento de despesa pública, a ser pago com os meus, os seus, os nossos impostos, provavelmente dezenas ou centenas de vezes maior do que todo o desvio da corrupção na política desde a redemocratização. Todo mundo vai cagar e andar para essa questão. Mas continuaremos indignados com a falta de dinheiro público para segurança, habitação, saneamento, saúde, educação, manutenção de estradas, etc etc. E a gente ainda faz piada de português



Quinta-feira, Março 09, 2006

Alçando o nível III

Gostei da idéia dos incentivos físicos à inteligibilidade. Assim como há aquele grupelho que joga torta na cara de magnatas e políticos globalizadores, poderíamos criar um grupo que dá chutes na bunda de intelectuais que escrevem coisas vaporosamente pretensiosas ou miolomolemente obscuras. Eu imagino este "comando pé na bunda" disfarçado como um grupo de estudantes em visita ao Congresso Nacional. Enquanto alguns conversam com o Gabeira, os olhos arregalados de fingida admiração, um deles dá a volta por trás e tasca-lhe um pé na bunda. Quando o deputado se volta assustado e puto, eles explicam: "Foi por causa daquele seu artigo idiota e ininteligível sobre o Haiti na Folha"



Alçando o nível II

Intelectuais brasileiros (ou que vivem no Brasil, como o Contardo Calligaris) prezam a ilegibilidade. Eu não entendo como o sujeito não se sente ridículo ao escrever, como ele fez, que "num mundo higienista, a subjetividade é definida pelo corpo". Se estou numa conversa com amigos e alguém se expresssa desse modo, é impiedosamente sacaneado. Isso é o que falta a nossos intelectuais: um bando de amigos impiedosos, que não perdoe deslizes como esse. Às vezes, a zombaria física também ajuda, como o bom e velho tapa no pescoço ou um peteleco na orelha. Se tivesse colegas que o tratassem com ironia e não com reverência, o Contardo Calligaris não teria escrito uma merda dessas - e, se tivesse, teria tomado uns cascudos para aprender.
Quem também deveria ser sacaneada e apanhar de vez em quando é a Marilena Chauí, a santa padroeira do partido que rouba, mas não faz. Um de seus livros se chama "A nervura do real - imanência e liberdade em Espinosa", que consegue a façanha de ser ilegível desde o título. É uma proeza para poucos

PS: Depois de escrever este post, eu me lembrei desta coluna do Alexandre Soares Silva. Como diria um intelectual brasileiro, o meu texto é claramente tributário do que escreveu Alexandre, o que revela subrepticiamente os mistérios e armadilhas do inconsciente



Alçando o nível

Num post recente do Filthy Mcnasty, ele pediu para os leitores listarem pequenas coisas que odeiam. Vejam o texto abaixo, da Folha de hoje:

CONTARDO CALLIGARIS
Os Iks, Kitty Genovese e o Engenho de Dentro

Na coluna da semana passada, comentei uma reportagem de Elvira Lobato sobre o que aconteceu recentemente numa rua do Engenho de Dentro, bairro de classe média da zona norte carioca.Numa madrugada, os moradores encontraram um carro com dois cadáveres retalhados; uma das cabeças estava exposta em cima do capô. Provavelmente, tratava-se de uma desova "exemplar" do tráfico. Pois bem, foi uma algazarra de zombarias e fotografias (utilidade comprovada dos celulares com câmara digital). Propus uma primeira reflexão, que resumo brevemente. Num mundo higienista, a subjetividade é definida pelo corpo, visto que, entre os sonhos... (continua)

A minha vontade ao ler um texto deste tipo é dizer: pega a tua interpretação idiota e enfia no cu, seu filho de uma puta! Olha que eu nem desgosto deste cara especialmente, e nem li o artigo para ver o que eu acho realmente desta particular interpretação de um particular fato. É pura implicância mesmo. Mas quando eu vejo alguém escrever "num mundo higienista, a subjetividade é definida pelo corpo blá blá blá...", tenho ato reflexo de pensar, quiçá berrar, "pega tua interpretação idiota e enfia no cu, seu filho de uma puta!"



Terça-feira, Março 07, 2006

Academia? Que nojo II

Meio preconceituoso este seu comentário sobre os caubóis que agasalham croquete. Quanto ao Oscar, minha opinião vai na mesma linha do início do post "Titio Oscar" do Fernando, do Número 12: tenho filhas, não vou ao cinema. Ou melhor, vou, mas só a filmes infantis. E uma das minhas frustrações atuais é não ter interlocutores para discussões cabeça sobre os filmes de criança. Eu converso bastante com minhas filhas, mas com a esperteza das crianças, elas não dão a mínima bola para teorias blá-blá-blá.
Eu gosto de filmes aclamados pela crítica, como Os Incríveis, mas como todo intelectual de mesa de bar, curto também ter opiniões originais e discordantes, sobre as quais discorro com aquele ar vivido, blasé e sarcástico, de quem flutua acima da classe média pseudo-ilustrada. Uma das minhas teorias é que "Os Incríveis" peca por ter elementos cabeça que só interessam a adultos – que criança se preocupa com a mediocrização da vida de casais de classe média na meia-idade? Já Madagascar, muito inferior à primeira vista, suscitou uma discussão entre mim e minhas filhas de sete anos sobre instinto, discernimento, moralidade e a diferença entre o comportamento humano e dos animais, que durou para lá de uma hora.
Outra opinião original minha: o subestimado Sinbad revoluciona ao apresentar uma heroína com ar levemente safado que abandona um príncipe, do bem, para ficar com um bandido (também do bem, vá lá, mas não precisa chegar a Jean Genet em cinema infantil).
Mas o meu grande clássico infantil, que passou praticamente despercebido, e que vimos pela primeira de muitas vezes quando elas tinham três ou quatro anos, é Spirit, a história de um cavalo selvagem nas pradarias americanas (que naturalmente é capturado por soldados vilões). O filme é totalmente água com açúcar e politicamente correto, mas, apesar disto – ou talvez por isto mesmo – é um clássico na melhor acepção a palavra: uma história grandiosamente simples, sobre temas primordiais como liberdade, honra, sexualidade, destino e perda, e que não se preocupa em ser esperta, original, descolada, engraçadinha ou qualquer destas neuroses maneiristas e neurastênicas da modernidade.
Do ponto de vista técnico e plástico, Spirit é estonteante: a cena de uma locomotiva rolando morro abaixo e levando no arrasto todo um acampamento de trabalhadores é inesquecível. Mas o momento epifânico vem depois da sensacional perseguição dos soldados ao Spirit, com um indiozinho montado a pelo, em uma daquelas formações rochosas gigantescas típicas do Arizona. Quando fica acuado no alto e já não tem para onde ir, o Spirit dá um salto estupendo até a formação de pedra vizinha. Milagrosamente, alcança o outro lado com o indiozinho. Neste momento, um dos soldados levanta a espingarda para fuzilar o cavalo, mas o capitão (o grande vilão e inimigo) baixa a arma com um gesto altivo, em reconhecimento de que a nobreza selvagem do seu nêmesis merece viver, para além de qualquer conflito ideológico ou de civilizações.

Não sei se choraria em Brokeback Mountain, como o Matamoros, mas me derreto cada vez que revejo Spirit

PS: O longa do Bob Esponja, aclamadíssimo pela crítica (pelo menos as que eu li na época), é de fato genial



Academia? Que nojo

Vocês viram o Oscar? Eu assisti. Foi brega e chato, mas eu sempre vejo até o fim. Como quase sempre, ganhou um filme meia boca. Dos cinco, Crash era o pior concorrente. Até a história dos caubóis que dão ré no quibe é melhor (para testar minha heterossexualidade, aliás, fui ver o filme sozinho, no Frei Caneca, e chorei no final. Algum problema? Vai encarar?) Mas voltando a Crash. O filme é divertido, não ofende a inteligência, mas não é nada demais. O roteiro exagera no cruzamento das várias histórias, e há um uso excessivo de “música dramática para emocionar o espectador”.
Mas eu não levo o Oscar a sério, fiquem tranqüilos. Como levar a sério um prêmio em que o melhor filme do ano não é nem indicado a melhor filme? É claro que estou falando de Ponto final, de Woody Allen, um filme adulto, que fala de assuntos adultos de uma maneira adulta. O filme trata com profundidade de questões como acaso e culpa, nunca de modo aborrecido. Os diálogos são impecáveis. É bom ou quase tão bom como Crimes e pecados. Ah, e tem a Scarlett Johansson. Parece que tem gente que não gosta dela, principalmente em Campinas, Pelotas e Brokeback Mountain. Eu não entendo, mas respeito quem não goste.
Em resumo, ganhou quem não merecia e quem merecia não foi indicado. Mas isso não é o maior problema do Oscar. O pior são os jornalistas e cinéfilos que falam “academia”. Eu não suporto. “Ai, será que dessa vez a academia vai ser ousada e premiar um filme corajoso e sensível como O segredo de Brokeback Mountain?” “Ai, a academia adora premiar atores ingleses”. “Ai, como será que a academia vai reagir ao neoconservadorismo da era Bush?” Quando eu ouço alguém falar assim, acreditem: eu fico com nojo



Segunda-feira, Março 06, 2006

Caetanos de batina II

Nos tempos em que eu tinha raiva da idiotice da nossa intelectualidade, e atribuía a ela parcela considerável da responsabilidade pelo nosso subdesenvolvimento - antes de entender que subdesenvolvimento e idiotice são a mesma coisa, e que se um está presente necessariamente encontrar-se-á também o outro; compreensão esta que tem me levado a uma visão progressivamente conformista, mística e serena do fenômeno -, os padres de esquerda eram um dos meus alvos preferenciais de ódio, por razões muito semelhantes às que você expôs: os comentários mais banais, previsíveis, pueris e equivocados invariavelmente vêm dos prelados que, alheios às agruras e recompensas da vida em família e no mercado capitalista, não têm a mais vaga noção da realidade que se manifesta a um centímetro dos seus focinhos intrometidos. Hoje em dia, confesso, a minha reação ao que disse ou deixou de dizer fulano de tal da CNBB é melhor expressa com uma frase de um personagem qualquer do Astérix (já não me lembro qual, talvez o chefe da tribo) depois de um dia em que tudo o que poderia dar errado assim o deu: "Estou sentindo um profundo cansaço mental"



Caetanos de batina

Bispo sempre tem ibope no Brasil. Qualquer declaração de integrante da CNBB ganha as manchetes. Na semana passada, o secretário-geral da entidade, dom Odilo Scherer, disse que o país se transformou num “paraíso financeiro”, numa referência ao nível dos juros, enquanto o arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes, criticou a política econômica, ao comentar o resultado do PIB do ano passado. Há alguns meses, dom Luiz Cappio entrou em greve de fome contra a transposição do São Francisco. Em vez de ignorá-lo, o governo negociou com ele, cedendo à chantagem.
Triste do país em que opinião de bispo é levada a sério, ainda mais sobre um tema simples como economia. As idéias de dom Odilo sobre política monetária são tão relevantes quanto às do Palocci sobre a santíssima trindade. Em 2000, a CNBB fez um plebiscito sobre a conveniência de o país pagar a dívida externa, num momento em que a dívida externa não era um problema. Qualquer calouro do curso de Economia sabia disso, mas a entidade foi adiante com sua idéia ridícula.
No Brasil, os bispos são caetanos de batina. Eles não têm a menor idéia sobre o que estão falando, mas não se furtam a dar opiniões categóricas a respeito de tudo. Podiam se ocupar de coisas mais úteis, como punir os padres pedófilos. Mas isso é tão provável quanto acreditar que Caetano consegue dar entrevista sem dizer bobagens



Domingo, Março 05, 2006

Metamorfoses ambulantes e generalizadas II

A Economist tocou apenas de passagem no ponto central: Lula é sortudo. Poucas vezes na história do país houve um presidente com tanta sorte. É quase inacreditável como o cenário externo tem sido favorável desde que o Guia Genial assumiu. Há dinheiro sobrando no mercado internacional para países emergentes. Os preços do petróleo batem em US$ 70 o barril e não há crise. A economia americana tem um déficit externo de US$ 800 bilhões por ano, mas não há sinal de ruptura à vista. Mesmo com esse ambiente quase irreal, o que consegue seu governo? Crescer a uma taxa média de 2,6% ao ano. Ridículo. Fernando Henrique fez várias bobagens em seus oito anos no poder, mas enfrentou um cenário externo adverso na maior parte dos seus dois mandatos. Foi uma verdadeira chuva de pica.
Ao adotar uma política econômica conservadora, Lula evitou apenas uma catástrofe como o calote, o que não era mais do que sua obrigação. Ele não merece elogios por não ter quebrado o país.
A visão de mundo do Guia Genial é tacanha e futebolística. Ele acha que Napoleão foi à China. Ele se orgulha de não ter estudado. Sua incapacidade de decidir é quase folclórica. Demorou meses para fazer reformas ministeriais risíveis. Não quis manter Armínio Fraga no Banco Central (BC) por pura birra. Para substituí-lo, colocou um ex-banqueiro do PSDB que não é especialista em política monetária. Seu ministro da Fazenda defende uma política fiscal ortodoxa, mas sua ministra da Casa Civil quer gastar os tubos. Em vez de decidir por uma ou outra estratégia, ele estimula as divergências entre eles. Quer que os juros caiam mais rápido, mas seu governo não pára de aumentar os gastos públicos. A política externa é ultrapassada. Quer ser o líder dos países pobres, em vez de negociar acordos comerciais com quem realmente interessa, como EUA e União Européia.
Na crise política, foi cínico. Maior símbolo do PT, fingiu que não tinha nada a ver com os escândalos envolvendo o partido. Ele garante que não sabia de nada. Disse que foi traído, mas não disse por quem. Apostou que, com o tempo, a crise perderia a força e a maior parte da população esqueceria as denúncias de corrupção. Como mostram as últimas pesquisas de opinião, parece que Lula estava certo ao subestimar o eleitor.
A Economist diz que Lula tem potencial para ser um dos mais notáveis políticos da América Latina. Acho que só pode ser ironia. Se bem que a concorrência na região é tão fraca que talvez a revista esteja falando sério. Sorte dele. Azar do país



Sexta-feira, Março 03, 2006

Metamorfoses ambulantes e generalizadas

Eu fui um dos mais implacáveis "PT haters" antes do Lula chegar ao poder. Minhas credenciais neoliberais e anti-esquerdistas são impecáveis. Eu já era a favor do capitalismo quando o Paulo Francis era trotskista, e olha que eu nem sou tão velho assim. Porém todavia contudo, acompanhando um duro processo de amadurecimento, todas as minhas convicções foram se desmanchando no ar, pulverizadas pela fabulosa capacidade da história de produzir non-sense em cima de non-sense. Nem tanto as convicções sobre como as coisas devem ser, mas muito mais as convições sobre o que deve acontecer para que as coisas sejam como devem ser.
Quando o Lula assumiu a presidência, e aplicou de forma firme e consistente uma política macroeconômica conservadora (até exageradamente, o que é desculpável, na parte monetária), eu parei de detestar o Lula e o PT. Sinto muito, mas parei, mesmo. O que não quer dizer que eu vá jamais me furtar a sacaninhar com todas as forças da minh'alma o festival de imbecilidades produzido por este governo (ou por qualquer outro, passado ou futuro, embora o grau possa variar - qualidade existe).
Bem, disto isto, e só para provocar, transcrevo aqui um trecho da recente reportagem especial da The Economist sobre o nosso Guia Genial. Não tenho nada a opinar a respeito, mas gostaria que nossos leitores e o indomitável Matamoros o fizessem.

O título do editorial é "A Mágica de Lula". O trecho é o seguinte (atenção ao grifo) (estou sem saco de traduzir):

"Lula is not just a charismatic politician but also, it seems, a lucky one. He promised clean government, presided over a corruption scandal, and yet still looks capable of winning a second chance. He has the potential to become one of Latin America's most remarkable democratic politicians. But the greater part of his work still lies ahead of him."



Paga um boquete no pinto do paco II

A estupidez caminha a passos largos, e a transformação do funk em um fenômeno cult é um sintoma claro da debilidade em marcha. Mas talvez eu esteja exagerando. O gosto médio costuma ser sempre ruim, e provavelmente não piorou de uma hora para outra. O que talvez seja a novidade é o acompanhamento acrítico de “manifestações artísticas” como o funk. As reportagens de jornais, revistas e telejornais sobre o assunto tentam apenas retratar a música feita por favelados e faveladas que caiu no gosto da classe média descolada. Em geral, não há nenhum juízo de valor sobre a qualidade do que se analisa (você pode dizer que os repórteres fazem isso porque cabe ao leitor ou ao espectador julgar, mas isso é uma visão ingênua do que é jornalismo).
Parece que é um pecado dizer que as letras são primitivas e de mau gosto e a música é pobre e insuportável. Prevalece, quando muito, uma tentativa “antropológica” de explicar as “raízes do fenômeno”. Mas como levar a sério letras como a que você citou (Paga um boquete, abre as pernas e a gente mete)? A atitude séria em relação ao funk seria mostrar a indigência artística de quem o faz e ridicularizar a classe média moderna que o ouve.
E, antes que digam que tenho birra apenas em relação ao funk, essa atitude também é indicada para reportagens sobre artistas plásticos que fazem instalações com burros ou diretores de teatro que fazem peças com cinco horas de duração. Por isso, eu peço mais opinião e menos “compreensão”. É claro que julgar exige conhecimento e rigor, o que não está ao alcance de todos. Mas a postura de antropólogo dos jornalistas culturais é pior do que um julgamento pouco embasado



Quinta-feira, Março 02, 2006

Paga um boquete no pinto do paco

É um pinto de paca macho, mas o seu Amílcar chama de pinto de paco mesmo. O causo é o seguinte. O pinto do paco tem uma espécie de gancho que, segundo seu Amílcar, rasga a xoxota da paca quando esta dá pela primeira vez. A paca não trepa de novo, ele garante, mas também não morre. Este poderoso pinto de paco, que deixou um rastro de prazer e destruição enquanto pertencente a um corpo de paco, está dentro de uma cachaça há 20 anos – sempre segundo seu Amílcar – e beber desta cana garante potência ad infinitum. A coleção de cachaças do bar do seu Amílcar é fantástica (ele não força ninguém a provar a de pinto de paco, fiquem tranqüilos). A pura é de primeiríssima qualidade, mas seu Amílcar faz umas misturas geniais, desde a cachaça de carqueja (o álcool já vem com o remédio regenerativo) até a de “cheiro de mel”, que nada tem de doce e enjoativa, mas deixa apenas um sutil travo de mel alguns segundos depois de ingerida. Ele é dono de um bar/venda em São Gonçalo do Rio das Pedras, em Minas Gerais, na região de Diamantina. Como vocês perceberão pelas fotos em volta e abaixo, é um local encantador, com uma igrejinha linda, um casario colonial super-charmoso, e pelo menos uma pousada digna dos melhores planos românticos.

Mas reparem bem na foto lá de baixo. É Biribiri, outro lugar transadinho perto de Diamantina. Se vocês olharem bem, tem uma picape escura no meio. Pois é, no exato momento em que fotografei o local, o equipamento ultra-possante da picape em questão estava tocando uma fina seleção do melhor do nosso funk. Além da marcação ensurdecedora do baixo – TUM...TUM TUM, TUM... TUM TUM, as letras ternas como “PAGA UM BOQUETE!!! PAGA UM BOQUETE!!! ABRE AS PERNAS E A GENTE METE!!! (uma exceção, diga-se de passagem, no atual cenário funk, por não conter referências explícitas a sexo anal). Anna Maria Kuhne, a suíça dona da pousada Refúgio dos 5 Amigos, em São Gonçalo, já não sabe o que fazer. Depois de ter jogado uma fortuna e muita energia pessoal no projeto de montar o seu pequeno paraíso romântico numa vilazinha colonial brasileira, ela vê sua clientela tradicional fugir do local, por incompatibilidade com o ritmo e graça do nosso funk. Não é uma beleza a influência da cultura popular carioca no Brasil profundo?



Quarta-feira, Março 01, 2006

Carnavalescas

São Paulo quer que seu carnaval seja levado a sério, mas não pára de dar sinais de que é o túmulo do samba. Como é que uma escola que tem um mestre-sala japonês pode ganhar? Depois de 4.678 reportagens, todo mundo deve ter visto que a Império de Casa Verde tem o simpático japa Tsubasa Miyoshi como mestre-sala. Pelo pouco que vi, ele samba tão bem quanto eu, famoso por ter uma ginga de finlandês

***

Acabei de ver uns trechos da apuração de resultados do carnaval do Rio. Eu fico impressionado com as notas atribuídas pelos jurados, que distribuem a torto e a direito 9,9, 9,8, 9,5. Sim, eu sei que a avaliação de categorias científicas como alegorias e adereços, evolução e harmonia é necessariamente subjetiva e arbitrária, mas a precisão decimal das notas me parece ridícula

***

Hugo Chávez é um sujeito bastante nocivo, mas dessa vez ele foi longe demais. A PDVSA, a Petrobras da Venezuela, deu US$ 1 milhão para a Unidos de Vila Isabel, que teve como enredo a integração latino-americana. Escola de samba é uma das coisas mais chatas do mundo, mas escola de samba que fala da integração latino-americana é insuportável. Os jurados não concordam comigo, tanto que a Vila Isabel foi campeã. O horror, o horror

***

Sabem quem também gostou do enredo da Vila Isabel? Emir Sader, um dos heróis intelectuais do Torre de Marfim. Mais uma vez, eu não resisto em citar um trecho de um artigo escrito por ele, um dos melhores humoristas involuntários da América Latina: "A escolha da Vila Isabel não poderia ser mais feliz, por ser feita no momento em que o nosso continente se revela como o principal cenário de resistência aos modelos exógenos – mais um dos exemplos daqueles 'esquemas alheios' – de que nos fala Garcia Márquez – e que 'só contribui para tornar-nos cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solitários'. Aqui Bolívar é reivindicado, como o são Martí, Mariategui e o Che – alguns dos tantos que apontaram para nossa história com fonte direta do nosso destino e dos horizontes da nossa emancipação." Cabra bom, esse Sader!
E parece que ele deu vexame na exposição do Nuno Ramos no Instituto Tomie Ohtake, ao ver a instalação em que três burros circulam entre montes de feno. Sentindo-se à vontade, o nosso intelectual não resistiu a sua iguaria preferida e fez uma boquinha por lá mesmo. Um dos burros protestou: "Dividir o feno com outros dois jumentos eu agüento, mas com o Emir Sader não dá", disse o ofendido animal, que completou: "Só falta o Lula aparecer por aqui"



Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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