Nossos Warren Buffetts III
Não existe nada mais tira-tesão do que o centrismo. Guerrilheiros da Sierra Maestra, neonazis em uniformes da SS, até mesmo o homem-bomba islâmico ocasional - tudo isto é material que pode ser trabalhado pela indústria do sexo. Numa escala abaixo, artistas angustiados, padres engajados, anarquistas delirantes, esquerdistas prolixos, curmudgeons irados e magnatas inescrupulosos também dão jogo. Agora experimente pedir a um mestre do filme pornô, ou mesmo do cinemão erótico, que bole um enredo no qual o protagonista masculino é um sujeito de bom-senso preocupado com o equilíbrio das contas públicas. Sejamos francos, não dá para culpar as mulheres. Uma saída é dar um caráter radical ao centrismo. Quem sabe não iniciamos um movimento? Você entra em greve de fome em defesa de uma reforma tributária que reparta de forma mais racional receitas e obrigações entre os três níveis da União, e eu circulo pelos bares para testar a repercussão do ato heróico junto ao público feminino
Nossos Warren Buffetts II
É por essas e outras que eu lamento não ter convicção suficiente para ser de esquerda. O caminho para uma vida de sucesso financeiro estaria garantido. São homens como Augusto Boal e Cony que deveriam dar palestras de motivação para executivos. A visão de longo prazo deles é uma coisa invejável, não? Eu não me espantaria se o Cony, por exemplo, fosse o verdadeiro autor da frase do Deng Xiaoping de que enriquecer é glorioso. Mas se engana quem acha que o principal ganho de ser de esquerda no Brasil é financeiro. Poucas coisas têm mais sex appeal por aqui do que um discurso progressista. Diga numa mesa de bar que a política neoliberal dos últimos anos está acabando com o país e que o governo deve destinar 150% do orçamento para educação e outros 150% para a saúde. A reação de encantamento que isso produz em grande parte das mulheres brasileiras é impressionante. Se você duvida de mim, faça o contrário. Defenda o aumento do esforço fiscal ou diga que o Brasil investe bastante em educação, mas o problema é que gasta mal. A possibilidade de você acabar a noite sozinho só não é maior do que o tamanho da indenização do Cony
Nossos Warren Buffetts
Depois de comprar ações da Microsoft no início dos anos 80, tenho certeza de que não existiu investimento mais rentável no pós-guerra do que adquirir ações de comunas brasileiros nos anos 60 e 70. Veja o o caso do teatrólogo Augusto Boal, que acaba de ser agraciado pela Comissão de Anistia com uma pensão vitalícia de R$ 11 mil mensais e mais uma indenização retroativa a ser calculada. É um tipo de business plan que ataca em duas frentes: o prestígio (merecido) de ter lutado contra a ditadura abre as portas para consagradoras carreiras, mas o diferencial de rentabilidade vem mesmo das pensões e indenizações do governo democrático. Meus cálculos preliminares indicam que a taxa interna de retorno das Boal OA é de pelos menos 42% ao ano, superando a dos bancos privados brasileiros. Boal foi torturado, e, portanto, é legítimo seu pleito por uma indenização do Estado brasileiro (que o mesmo não role para o crioulo anônimo torturado nas delegacias do brasulzão não é culpa dos comunas). Já a pensão de Boal, que só se justificaria caso tivesse ficado inabilitado e incapaz de prover para si, o que não é o caso, parece-me ser o lado propriamente capitalista do investimento. Em termos de ação, porém, nada supera as Cony OO, que bombaram espetacularmente com os dividendos estipulados pela Comissão de Anistia no ano passado. Para quem não lembra, Carlos Heitor Cony obteve indenização de R$ 1,5 milhão e remuneração mensal de R$ 19 mil. Neste caso, porém, ao maior risco correspondeu maior rentabilidade, como ensina a teoria das finanças. Afinal, tem que ter muita coragem para ser protégé do comunista Adolpho Bloch em plena ditadura. Imagina se os militares descobrissem...
Atenção, há um farsante entre nós V
Acho que o helenismo-babaísmo está certo em identificar os funcionários públicos aposentados como a classe revolucionária por excelência. Foi um erro fazer guerrilha no Araguaia, e não no calçadão de Copacabana. Além da vantagem de operar em meio a uma população muito mais disposta à sublevação pelo socialismo, os guerrilheiros de Copacabana teriam evitado carrapatos, mosquitos e espinhos, e poderiam espairecer na Help nas tréguas do combate. Ok, ok, a Help não existia naquele tempo, mas o que nunca faltou em Copa é puta
Atenção, há um farsante entre nós IV
Misteriosos são os rumos da esquerda brasileira. Deputados como Babá e senadores como Heloísa Helena se empenham há anos em defender a aposentadoria de funcionários públicos e professores universitários antes dos 50 anos. Parecem acreditar realmente que esse é o caminho mais curto para o socialismo - nada a ver com a proteção de interesse de grupos específicos, que apenas por coincidência são suas bases eleitorais. Eu realmente fico emocionado com a defesa de ideais tão altruístas, que, tenho certeza, são fundamentais para melhorar a distribuição de renda do país. Afinal, há coisa mais bonita e socialmente eficaz do que um professor universitário se aposentar antes dos 50 anos, ganhando um salário muito acima da média dos demais brasileiros?
Atenção, há um farsante entre nós III
É, talvez o mundo tenha saído no lucro com a conversão do Belchior em Babá. O novo nome foi muito bem sacado, é uma homenagem bonita a uma das categorias profissionais mais injustiçadas no Brasil, que agora fica bem representada no P-Sol. O partido, porém, dificilmente terá energia para algo mais do que a estafante luta em prol dos funcionários públicos, a única causa realmente revolucionária no mundo financeirizado da globalização. O helenismo-babaísmo não vai deixar a peteca cair
Atenção, há um farsante entre nós II
Há alguns anos, eu fui ao Centro Cultural São Paulo para ver uma peça. Não sei mais o que eu fui assistir, mas ocorreu algo naquele dia de que me lembro perfeitamente. Assim que cheguei ao saguão, perto da bilheteria, ouvi sons assustadores. Não consegui identificar o que era. Tentei imaginar o que produzia aqueles barulhos medonhos. Um porco sendo castrado? Algum animal guinchando para ameaçar uma possível presa? Os sons eram tão horríveis quanto esses, mas eram mais graves - e mais fanhos. Aos poucos percebi que era um show do Belchior, que cantava numa das salas do Centro Cultural. E, acreditem, o pior vocalista da MPB tinha fãs, que entoavam suas músicas com empolgação. Depois disso, não me lembro mais de ter ouvido falar em Belchior. É possível que tenha sido um dos últimos shows do cantor antes de sua transformação em Babá. E, para reforçar sua teoria, na época eu não tinha a mínima idéia de quem era o deputado. Acho que a transformação de Belchior em Babá foi um dos momentos históricos da música popular brasileira. O silêncio de Belchior é muito melodioso e agradável. Quem ouviu sabe do que estou falando
Atenção, há um farsante entre nós
Eu caminhava pelo Centro do Rio, passando pelo "Buraco do Lume", uma espécie de Speakers' Corner carioca (com a peculiaridade de que apenas radicais de esquerda falam), quando vi o deputado Babá discursando. Ele falava sobre o fato de que Lula acabara de vender 'bacias' brasileiras aos gringos. Vibrei, imaginando que finalmente os americanos tinham comprado as terras da bacia amazônica, e este troço cacete de floresta pegando fogo ia acabar. Mas logo verifiquei que Babá falava do leilão de áreas de exploração de petróleo. Como o deputado referia-se a bacias, o povo letrado do Centro do Rio deve ter imaginado que as bacias de Campos e de Santos, responsáveis por 80% ou mais do petróleo brasileiro, foram vendidas, e a Petrobrás ia ser fechada. Fui embora, temendo ser tragado pelo iminente motim da turba excitada. Mas foi aí que, subitamente, entendi a farsa do deputado Babá. Atenção, brasileiros: o deputado paraense ninguém mais é do que o cantor Belchior, reciclado. Tudo ficou evidente. Quando, pela derradeira vez, um brasileiro - no caso, um hippie velho que nunca conseguiu sair de Arembepe - emocionou-se com 'eu sou apenas um rapaz latino-americano', Belchior sentiu que o clima estava ficando pesado para o seu cancioneiro. O hippie tocou o disco na sua vitrola, teve os arrepios habituais, mas em seguida concluiu: "Caralho, esta música é uma bosta". Jogou fora o disco no terreno do vizinho, e o fenômeno 'brasileiros se emocionando com música de Belchior' virou história. O ex-cantor, com os caraminguás acumulados por décadas na estrada, fez uma plástica superficial, rumou para Belém e reinventou-se como o político p-solista Babá. A prova definitiva da minha descoberta é que nunca, jamais, em tempo algum, vi uma foto do Babá e Belchior juntos.
Caspa, eu? X
Não, não dá para devolver o Acre, porque o estado foi palco de um importante momento da nossa literatura. Euclides da Cunha estava em terras acrianas (é assim mesmo, garante o Aurélio) quando foi chifrado, o que levaria ao seu assassinato em 1909. Dura a vida dos literatos desbravadores. Quanto à Roraima, os nativos se enfurecem quando alguém pronuncia Rorãima (como em rã), e não RorAima (como em pá). É célebre na Amazônia a chacina do grupo de ongueiros dinamarqueses, quando um deles teve a infelicidade de perguntar se aquele matagal todo era 'Rorãima'. Até hoje podem ser encontrados olhos azuis em colares de contas das jovens roraimenses
Caspa, eu? IX
Você foi convincente, mas eu ainda não estou inteiramente convencido da existência de Roraima. Aliás, eu sempre pronunciei Rorãima, de forma anasalada. É assim que se pronuncia? E, se Roraima realmente existir, será que não dá para vender o estado para algum país vizinho? Acho que esse poderia ser o tema de um novo referendo. A consulta aos cidadãos poderia incluir também uma sugestão de uma amiga minha: devolver o Acre para a Bolívia. Chico Mendes seria um herói boliviano, mas Hildebrando Paschoal deixaria de ser um deputado brasileiro com o estranho hábito de serrar pessoas. Será que a troca valeria a pena?
Caspa, eu? VIII
Roraima existe, sinto informar. Tem uma densidade de um habitante por cem quilômetros quadrados, literalmente. Cada roraimense vive isolado nos seus cem quilômetros quadrados, mijando nos troncos das majestosas árvores amazônicas nos limites do seu respectivo quadrilátero, para demarcar o território. Eles se reúnem regularmente, porém, para uma importante festividade tribal: o Dia da Transferência. É um espetáculo grandioso. Um gigantesco granoduto, elevadíssimo, de dimensões ciclópicas, liga Brasília à Boa Vista, onde termina no maior chuveiro do mundo, que derrama milhões de cédulas de reais sobre nativos eufóricos - as transferências constitucionais obrigatórias. Dizem, porém, que a elite local desvia boa parte do dinheiro, sorrateiramente, antes do chuveirão ser ligado em cada Dia da Transferência. É uma pena que as instituições brasileiras estejam tão corroídas pela corrupção.
Caspa, eu? VII
O Nordeste é realmente um mundo de surpresas. Em minha viagem por lá, eu também passei pelo Piauí, o lugar mais quente em que jamais estive. Confesso que na minha adolescência eu duvidei da existência do Piauí, mas pude atestar que o estado não é uma invenção para separar o Maranhão do Ceará, como um amigo meu insinuava. Eu fiquei dois dias em Parnaíba, e foi o suficiente para perceber que o piauiense é um herói. Manter-se vivo num calor daqueles é uma tarefa sobre-humana. Após algumas horas em Parnaíba, eu não tinha vontade de fazer nada. Tomar um copo de água demandava um esforço enorme. Percebi, emocionado, que o desenvolvimento econômico do Piauí é elevadíssimo para quem enfrenta aquelas condições climáticas. Se eu morasse por lá, ficaria deitado o dia inteiro. E eu estive em Parnaíba, uma cidade com um clima aprazível para os padrões piauienses, devido à existência do rio. No interior do estado, dizem, o calor é ainda maior, algo que não consigo conceber PS: O Piauí existe, mas eu tenho certeza de que pelo menos Roraima é uma invenção
Caspa, eu? VI
Eu fiz um tour das praias cearenses, imaginando uma viagem romântica, o equivalente tropical e selvagem de, digamos, alugar um carro e rodar pelo interior da França. Fiz grandes descobertas. A primeira é que a forma ideal de se viajar no Brasil é o caixotomóvel, uma câmara hermeticamente fechada, sobre rodas, no interior da qual são passados incessantemente aqueles filminhos de avião sobre as belezas do país. A razão é que, ao contrário do interior da França, tudo o que você encontra no deslocamento entre dois pontos bonitos do Brasil é horroroso. A arquitetura no entorno de boa parte das praias cearenses é instigante. São prédios, que freqüentemente abrigam restaurantes, e que têm aquele estilo 'posto de gasolina na estrada' que, não me pergunte a razão, sempre me traz reminiscências dos grandiosos projetos do Niemeyer em Brasília. A população local, nas praias cearenses, tem uma forma revolucionária de reciclar o lixo, que pode ser resumida na engenhosa fórmula: eu jogo o lixo no terreno do vizinho, o vizinho joga o lixo no meu terreno, mas podemos chegar a um acordo civilizado e jogar todo o lixo no terreno baldio entre nossos dois terrenos. E o gosto musical do litoral cearense é super-eclético. Bares com mesas ao ar livre, um ao lado do outro, tocam no máximo volume a sua música: forró aqui, heavy metal um metro adiante, clássicos da MPB a cinco mesas da sua. O resultado é fantástico, de grande hermetismo paschoal. Jericoacoara, finalmente, é aquela maravilha a que já nos referimos. Especialmente se você é mosca. Ah, e quanto ao seu projeto para as praias... só poderia ter saído da cabeça de um paulista.
Caspa, eu? V
Eu fui à Jericoacoara no verão, e fiquei realmente assustado com a quantidade de moscas. Percebi que elas dominam o local. A idéia de que os humanos as toleram é errada; as moscas é que nos toleram. Nas duas primeiras refeições, eu tentava de todas as formas mantê-las longe da comida. Vi rapidamente que isso era impossível; como você, me contentava em não engoli-las, no que fui relativamente bem sucedido. Além disso, os esforços para impedir que as moscas pousassem no prato eram desperdício de tempo: para que tentar afastá-las se com certeza muitas outras haviam freqüentado a comida quando o cozinheiro a preparava? Mas Jericoacoara é uma praia bonita, você está certo. A questão é que tem os problemas de toda praia. Quando eu era criança, imaginei duas medidas de aperfeiçoamento. A primeira seria substituir a areia por azulejos. Não ficaria mais confortável e menos sujo? A outra seria tirar o sal da água. Por alguns momentos, achei que tinha tido uma idéia revolucionária. Mas o deslumbramento durou pouco. Eu logo percebi que tinha inventado a piscina
Caspa, eu? IV
Percuciente análise, caro Matamoros. Um a um, os mitos anti-masturbação foram caindo, reforçando a saudável crença ocidental no individualismo. Mas permita-me introduzir mais um gigantesco passo à frente da civilização, que também passa quase despercebido, como o fim da caspa e da acne. Trata-se do desaparecimento das moscas no Rio. Na minha infância e adolescência, elas eram companheiras constantes das nossas refeições, besuntando os alimentos com suas patas notoriamente imundas e pestilentas que, como nos lembrava a imemorial sabedoria popular, freqüentavam indiferentemente o input e o output das extremidades do tubo digestivo humano e de outros animais, refestelando-se tanto nas iguarias quanto nas porcarias. E a mosca grudenta no quarto de manhã bem cedinho, roubando-nos a última hora de sono? – quanta nostalgia! De uns anos para cá, porém, elas desapareceram todas. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir o porquê do fenômeno. As moscas cariocas mudaram-se, em massa, para Jericoacoara, a paradisíaca praia cearense onde, no verão, difícil não é impedir que uma mosca pouse na sua garfada (é impossível), mas sim conseguir introduzir o garfo na boca sem que juntos venham um ou mais exemplares do adorável inseto. Mas aquela praia é uma coisa de linda, bicho.
Caspa, eu? III
Uma análise cuidadosa mostra que a campanha de difamação da punheta teve seu primeiro golpe com a descoberta da cura da tuberculose. A ameaça sempre presente da doença deve ter atormentado muito o punheteiro do fim do século 19 e começo do século 20. Numa época em que o sujeito morria de tuberculose com 21 ou 22 anos, quantos adolescentes não devem ter ficado com a certeza de que fazer justiça com as próprias mãos causava o mal do século? Com a descoberta da cura, o moleque podia se masturbar mais tranqüilo. Ainda que a punheta levasse inevitavelmente à doença, ele se safaria da morte, tendo de conviver com riscos mais administráveis, como a ameaça do crescimento de peitos e o surgimento de pêlos na mão, até onde eu saiba fenômenos não comprovados, não?
Caspa, eu? II
Grande tema. Nesta onda de pessimismo em relação ao Brasil e ao mundo, empesteados pela dupla Bush/Lula, você flagra um autêntico e indiscutível passo à frente da humanidade. Parabéns! Em princípio, acho pouco provável uma explicação darwinista para o fenômeno, qual seja, a sistemática rejeição dos homens caspentos pelas fêmeas casamenteiras e reprodutoras. As causas do fim da caspa são anyone's guess, mas gostaria de levantar um outro grande salto da espécie, o fim da acne. Você tem observado as faces dos adolescentes? É claro que aqui ou acolá você pega um(a) espinhudo (a) remanescente, mas lembro-me de que, na minha época, pelo menos um terço da classe tinha as bochechas minadas por campos de pus e verdadeiros chapadões vermelhos, nebulosas de espinhas, uma coisa grotesca. Neste caso, porém, arriscar-me-ia (notou que o Guia Genial deu para usar a mesóclise?) a avançar uma explicação: o fim da masturbação culposa, ou, de forma geral, da culpa em relação às práticas libidinosas. O psychobabble tem se revelado correto em retrospectiva, e, neste caso, pelo menos, a História vingou as teses progressistas, e enterrou as conservadoras. Conheci punheiteiros dignos do Guiness Book of Records na adolescência, e hoje nenhum deles usa sutiã: em outras palavras, a tese do crescimento dos mamilos e peitos pela prática do onanismo não se confirma empiricamente. Por outro lado, o fim da acne está indiscutivelmente ligado à liberação sexual na adolescência. Lembro-me como se fosse hoje de um coleguinha de colégio, no qual mal se entrevia a pele da cara em meio às protuberâncias vermelhas fumegantes de pus, convidando-me para uma sessão de tortura de gatos. Está claro que ele maltratava bichanos e corroía-se em acne pela culpa das sete punhetas diárias. O Iluminismo é um processo ainda em andamento.
Caspa, eu?
Há alguns meses, eu constatei um fenômeno estranho: a extinção da caspa. Fiquei meio sem saber o que fazer com tão impressionante descoberta. Em primeiro lugar, fiz questão de me certificar de que não era uma conclusão precipitada. Passei a observar com atenção os cabelos de pessoas no trabalho, na rua, no ônibus, no metrô, no teatro e no cinema. Nesse período, eu vi penteados ridículos, carecas vergonhosas, cabelos ensebados, madeixas mal cortadas, mas não encontrei nenhuma cabeleira tomada pela caspa. Quando eu era moleque, no fim dos anos 70, um amigo de meu pai me impressionava por sua altura e, principalmente, pela caspa: ele vestia sempre um terno preto, coberto nos ombros por uma crosta branca. Nunca o vi com outro terno; nunca o vi sem caspa. Era um homem mítico em minha infância. É claro que ele não era o único que tinha caspa. Era apenas o exemplo mais gritante. Nos últimos anos, porém, figuras como esse amigo do meu pai foram escasseando. Os antes freqüentes anúncios de xampu anticaspa também sumiram da televisão. Parece que a caspa saiu de moda nos últimos anos. Teve seu auge nos anos 70, assim como a calça boca de sino. Aos poucos, ficou demodé. Eu tenho quase certeza de que nós vivemos num mundo sem caspa. Eu confesso que desconheço os motivos que levaram à extinção da caspa. O que isso significa? Eu não sei. O mundo sem caspa é um mundo melhor? Eu também não sei. Deixo com vocês apenas a constatação de que ela não participa mais de nossas vidas. E aproveito para fazer uma pergunta: será que a seborréia - a palavra mais feia da língua portuguesa - também teve o mesmo destino?
Zuenirismo e seus descontentes V
A sua abordagem do Suplicy remete sarcasticamente à minha confissão de simpatia e admiração pelo senador. E a deixa é positiva no sentido de me permitir uma última lapidada no conceito do zuenirismo. Suplicy não é zuenirista exatamente pela sua forma desabridamente ridícula de sair do palácio para dar alpiste para os pobres. A sua total falta de desconfiômetro político e social (para num nível superior estabelecer o seu carisma), o caráter quixotesco da sua atuação, torna-o único. Ele não está interessado em fortalecer uma rede de cumplicidade no seu próprio extrato social, não age de forma maçônica. É um puro burro vivendo fantasias quase medievais de nobreza e santidade. Não importa se é tudo uma farsa e no fundo ele é um grande sacana (o que importa são as aparências). Ele tem uma sucessão de momentos geniais: cantando blowin' in the wind na tribuna do Senado, posando com seu pijama de seda na noite em que dormiu com os sem-terra, vivendo o drama do corno triste ainda apaixonado, abandonando campanha para retiro de meditação existencial, envolvendo-se no flerte 'come empregadinha' com a Heloísa Helena, etc. São momentos gloriosos da nossa política que reforçam a tendência contemporânea de que tudo o que for chato e necessário deve ser rebaixado para técnicos insossos tratarem na surdina cinzenta de escritórios mofinos, enquanto os astros da política nos distraem com espetáculo, drama, pantomina. Suplicy é um ser futurista. Eu sei, suas apresentações sobre renda mínima universal são tortura do mais sofisticado tipo, ouvi-lo falar por mais de cinco minutos seguidos leva quase à asfixia. Mas que importa, desligue o som e apreenda apenas as imagens, a lenda. Vida longa, senador Suplicy!
Zuenirismo e seus descontentes IV
Em São Paulo, a esquerda festiva - o zuenirismo não me parece outra coisa - não tem essa sede de integração social, eu me arriscaria a dizer. Se no Rio a festa na Mangueira atrai o escritor revelação, o cantor de MPB e o ator da Globo para o morro, por aqui a elite não mostra o mesmo interesse em se misturar com o cantor de hip hop do Capão Redondo. Quem vai à Vila Madalena pode até achar bonito a idéia de confraternizar com o sambista e o traficante, mas não está disposto a colocá-la em prática. A única celebridade paulista que eu me lembro de ter freqüentado a favela foi o seu ídolo Eduardo Suplicy, o forrest gump do Congresso, o inimputável dos Jardins, o dr. Pangloss tropical. Há alguns anos, ele foi dormir umas noites em Heliópolis, no que não foi acompanhado pela ex-mulher Marta Suplicy - e não acho que seja possível culpá-la por essa decisão, que me pareceu sábia. Eu havia dito que não havia um zuenir paulista, mas, pensando bem, Suplicy talvez seja exatamente isso. Quem dorme na favela e no acampamento dos sem terra no fundo está buscando essa integração que não integra, não? Sua defesa dos seqüestradores de Abílio Diniz também me cheira a zuenirismo. Mas Suplicy pode ser divertido. Ou não é engraçado um sujeito cantar Blowin' in the wind na tribuna do senado, com voz sofrível e em inglês ruim? Será que cada cidade tem o zuenir que merece?
Zuenirismo e seus descontentes III
Concordo, o zuenirismo é um fenômeno carioca, ou talvez a forma carioca de um fenômeno universal cujos contornos gerais você tentou mais ou menos rascunhar com a frase do Leopardo. Aquele espírito de maçonaria, aquela aliança tácita para proteger uma determinada ecologia sócio-intelectual que encanta e incensa seus seguidores, e irrita os que estão de fora ou não se identificam - isto provavelmente existiu em todos os lugares e épocas. O que o Rio tem de diferente é a exaltação do oba-oba, aquela particular perícia cínica em segregar quem pertence de quem está de fora, ao mesmo tempo em que se celebra o ideal da comunhão/suruba geral. O Rio é uma cidade partida na qual a corte gosta de ser bajulada - é a cidade do imperador. O intelectual carioca se compraz com a idéia de que ele e o funkeiro do morro tem uma ligação orgânica qualquer. Ele gosta do funkeiro. E o funkeiro tem de gostar dele. Existe uma convivência estritamente regulada. A favela está ali perto, a classe média sem rosto está por toda a parte, mas as celebridades pulam de boca-livre em boca-livre só para membros (e obviamente qualquer jogador de futebol, sambista, bicheiro ou traficante com sucesso e traquejo social pode ingressar, desde que devidamente introduzido por algum membro - para ser justo com o Zuenir, ele provavelmente já se insurgiu contra esta promiscuidade entre os cidadãos honestos e os fora-da-lei). Sobe-se a Mangueira para uma festa regada a cocaína e excelente bebida, na qual tudo é de muito bom gosto. Ai do crioulo que tratar indevidamente um convidado. Ai do convidado que tratar indevidamente um crioulo. O Rio é uma cidade de castas sociais que brincam de se tocar, e talvez daí venha parte da energia erótica da cidade. O amálgama total seria a anulação das diferenças, assexualização. A segregação absoluta também não dá caldo. Dom João VI chegou ao Rio com a sua corte e tomou as casas dos moradores. Olha aí a importância de pertencer 'ao' grupo, não 'a um' grupo. O Rio é uma cidade onde um morador da Zona Sul considera impensável ir ao cinema na Zona Norte, mesmo que a distância entre um bairro de uma e de outra possa ser, em alguns casos, menor do que o percurso para sair da Zona Sul e ir a um cinema na Barra, o que aquele morador faz sem problemas. Então, para reciclar a frase do príncipe Salina, eu diria que, no Rio, é preciso misturar tudo para que as coisas continuem separadas. Misturar em termos simbólicos, culturais e em ocasiões especiais, para que o acesso às oportunidades e aos prazeres da vida continue diferenciado, com o filet mignon reservado para 'o grupo' (dá-lhe, conspiração!) Eu tenho a impressão de que São Paulo é diferente. A elite aí se divide em grupos, mas não há "o" grupo. O importante é pertencer a um deles, e a relação entre os grupos é mais horizontal. Minha impressão é de que em São Paulo a elite compete, e no Rio se acumplicia. Sociologia de botequim é isso aí. Para mim chega.
Zuenirismo e seus descontentes II
Eu pensei por um bom tempo se há um zuenir paulista ou um zuenirismo paulista, e cheguei à conclusão que não há um espelho perfeito. Sem recorrer a simplificações e generalizações bairristas, me parece um fenômeno tipicamente carioca. Apesar disso, eu ousaria dizer que é um estado de espírito com repercussões sobre toda elite intelectual do país. Não seria zuenirismo se indignar com a distribuição de renda do país na mesa do bar, mas defender com unhas e dentes a aposentadoria de professores universitários antes dos 50 anos? O discurso zuenirista, no fundo, pode ser resumido na frase surrada do personagem de Lampedusa: é preciso que tudo mude, para que tudo continue como está
Zuenirismo e seus descontentes
Zuenir Ventura e Luiz Fernando Veríssimo caminham pelos paralelepípedos desalinhados de Parati, braços dados. Quanta bonomia... mas também consideração, o olhar humanista, o cenho levemente franzido pelo ‘sentimento do mundo’, por pensar em tudo o que há de tão errado por aí. Ahhh, o mundo poderia ser tão maravilhoso se todos fossem tão legais e íntegros quanto o Zuenir e o Veríssimo. "Cara, é um puta caráter, uma pessoa maravilhosa". Dias depois, eles comentarão em suas crônicas o passeio de braços dados à sombra do casario colonial: o que será que pensaram da gente, ho ho ho? Quanto humor, quanto lirismo. Ho ho ho, mal me agüento de tanto rir. Veríssimo é tão inteligente que está acima do zuenirismo (calma, definições e detalhes à frente), mas adora ser paparicado pelos zueniristas: é meio como o expedicionário ocidental perdido na selva que foi dar numa tribo nativa e acabou chefe e sumo sacerdote. Zuenir, como não poderia deixar de ser, é uma importante (mas não a única) matriz do zuenirismo, aquela doce forma de ser de esquerda na zona Sul do Rio, com apoio das Organizações Globo ("estes são os meus comunistas" – Roberto Marinho), um jeito muito humano, geeente, de ser, mas também a gravidade necessária para enfrentar os poderosos e denunciar os males do mundo: a violência, o Bush, o Maluf, a destruição do meio-ambiente, o neoliberalismo egoísta, o Lula de agora, enfim, aquelas coisas todas que ninguém tem coragem de atacar. Por favor, não me interpretem mal. Não tenho nada contra a esquerda festiva, isto é, as pessoas de esquerda ricas ou que têm o suficiente para viver muito bem. Pelo contrário, estas são as melhores e mais generosas, na maioria das vezes – o senador Suplicy e Gore Vidal estão no meu panteão particular, evidentemente não pela capacidade de compreender o mundo, mas quem se importa com isso? Conceitualizar o zuenirismo nada tem a ver com cobranças mesquinhas daquele tipo, porque o que define o zuenirismo não é a conta bancária, mas um estado de espírito. Ser zuenirista é ser óbvio (e por isto Veríssimo não é zuenirista), é colocar camiseta branca para pedir pazzzzz em passeatas pelas ruas limpas e bem cuidadas da Zona Sul quando os 40 presuntos semanais do tráfico ou da polícia no Rio concentram-se em um ou dois dias e a imprensa evoca a palavra ‘chacina’. É não só votar 'sim' no referendo sobre a proibição do comércio de armas (eu mesmo devo votar sim), mas proclamar que este é um ponto muito importante para que a pazzzz estabeleça-se na sociedade partida. É não só não gostar do Bush (eu não gosto), mas não gostar todos os dias, como as orações que fazíamos antes de dormir. É ser contra todas as invasões americanas: Iraque II (como eu), Afeganistão, Iraque I, Sérvia, aquela ilhota no Caribe, a prisão do Noriega ... se a gente for caminhando para trás acaba na Normandia. É adorar o Niemeyer não só como arquiteto, mas como gente, como ser humano. É ser docemente elíptico quanto à insistente defesa, por ‘um dos maiores arquitetos de todos os tempos’, de Stalin. Afinal, o Niemeyer é tão generoso, nem sabe cuidar do seu próprio dinheiro. Ser zuenirista é fingir que ser rico é uma coisa de mau-gosto, mas perdoável se você nem sabe cuidar do seu próprio dinheiro. Ser zuenirista é freqüentar como convidado vip todos os eventos culturais cult, da festa literária de Parati às bocas livres que ACM promove em Salvador de tempos em tempos. É conseguir a proeza de escrever uma crônica sobre a maravilhosa estadia em Salvador durante a última boca-livre do Malvadeza, com um texto que ao mesmo tempo livra a sua cara da acusação de ter sido cooptado pela direita e garante o convite para o próximo jábá do ACM. “É inegável que a cidade ficou muito mais bonita com as reformas do ACM, seja qual for a sua visão política - meu caro leitor - sobre o senador; aliás, fique tranqüilo, uma coisa nada tem a ver com a outra”. Ser zuenirista é esperar que o consenso zuenirista coalesça antes de escrever aquela importante crônica na qual, corajosamente, Zuenir (ou qualquer outro) rompeu com o lulismo. É tratar com um misto de silêncios, evasões, evocações de antigos laços e discretas alfinetadas aquelas ovelhas negras intelectuais que se insurgem raivosa e reativamente contra o zuenirismo, como Francis e os seus descendentes. “Não pega bem bater de frente”. Ser zuenirista é lidar magistralmente com a omissão e com formas quase imperceptíveis de censura (não no sentido legal do termo) quando se trata de assuntos incômodos. Aquele intelectual da turma que disse que vai votar ‘não’ no referendo? Para que questionar diretamente, se um tsk tsk apenas pensado e mudamente ronronado pelas cordas vocais já faz o serviço? Body language, meu caro. Ser zuenirista é conseguir concordar, nas mesmas 24 horas, com o que escreveram o Diogo Mainardi e o Emir Sader – mas só se a correlação de forças do momento (os componentes da mesa da Cobal do Leblon, por exemplo) assim o impôs. Ser zuenirista é amar a camaradagem das pessoas bonitas, elegantes e sinceras (para o gosto zuenirista), e detestar o dissenso arrivista e perturbador dos provocadores. Ser zuenirista é tentar cooptar todos os provocadores talentosos para o zuenirismo, em troca de acesso a este mundo ma-ra-vi-lho-so povoado pelo Chico Buarque, a garota de Ipanema, um banquinho e um violão, o camarote da Brahma, Zeca Pagodinho, a comissão de frente da Mangueira, as Organizações Globo, a Regina Casé, uma estréia de ópera no Municipal (com o Lulu Santos de smoking verde abacate circulando pelos corredores), etc. Ser zuenirista é zelar por este portentoso edifício ideológico que nos permite lutar por um mundo melhor, sem correr riscos nem perder as boquinhas.
O bispo em greve de fome VI
Você não acha que o José Dirceu poderia fazer uma greve de fome para não ser cassado? E o Celso Amorim pode fazer uma greve de fome se a China não parar de invadir o Brasil com seus produtos baratos. O Lula deveria fazer uma greve de fome se continuarem com esta bobajada de CPI. E o presidente da Fiesp fará a sua se os juros não caírem e o real não for desvalorizado. A fome voltou com força total à agenda, depois do fiasco do Fome Zero. Aliás, uma idéia para enriquecer: vamos criar a 'dieta da greve de fome'. O segredo é escolher uma causa megalomaníaca (como a do bispo do sertão), que no mínimo demorará a ser atendida. Eu acho que vou fazer uma greve de fome se a TV Globo não trocar a novela das 8 por uma retrospectiva do Gláuber Rocha e do Fassbinder (que com certeza não vou assistir). O problema é que sou magro. Sem querer insinuar nada, sirva-se da idéia, se quiser.
O bispo em greve de fome V
É incrível. O bispo está ganhando a briga com o governo. Não nocauteou Lula, mas já conseguiu que o governo adiasse o começo da obra. A estratégia, explicitamente chantagista, deveria ser ignorada se há realmente a convicção de que a obra é importante. Em vez de rechaçar a ameaça, Lula envia um ministro para conversar com o bispo. Mas como dialogar com um sujeito em greve de fome que jogou a responsabilidade sobre seu destino nos ombros do presidente? Quem é autoritário não deve ser tratado de forma democrática. Mas estou esperando uma atitude de estadista de Lula. Como dizia o barão de Itararé, de onde menos se espera é que não sai nada mesmo.
O bispo em greve de fome IV
Ele pode argumentar que Cristo também se expôs voluntariamente à morte, mas Cristo é Cristo, e além do mais a redenção de todos os homens me parece uma causa menos duvidosa que a não transposição do São Francisco. Mas consolemo-nos. Em outras paragens o bispo poderia ser um clérigo-bomba
O bispo em greve de fome III
O governo não deve dar a mínima para o bispo, mas você sabe que o brasileiro, um sentimental por natureza, se emociona com esse tipo de chantagem. Nas conversas que eu ouvi sobre o assunto, muita gente que nunca se preocupou com a transposição do São Francisco começou a dizer que o projeto é um absurdo e que o governo deve fazer alguma coisa em relação ao bispo. É o fim que dêem tanta importância à opinião de um religioso sobre um assunto complexo e técnico como esse. Mas, como o bispo dá palpite sobre a transposição do São Francisco sem ser especialista no assunto, eu também vou meter o bedelho num assunto religioso mesmo sendo leigo. Até onde eu sei, o suicídio é um pecado para a igreja católica. Como o bispo está se suicidando de forma lenta, gradual e segura, não caberia um processo de excomunhão? A CNBB poderia tomar uma providência
O bispo em greve de fome II
Meu caro, acho que você, desta vez, peca pela moderação. É de transcendental importância que o governo deixe o bispo à míngua, e não mova uma palha em função do dito cujo. Estamos diante de uma ocasião magnífica para se afirmar o princípio da não-intervenção em presepada. O caso é simples. Todo brasileiro tem o direito a pagar mico, por mais transcendental que seja. Em contrapartida, o governo e a sociedade têm o direito (e o dever, no caso do primeiro) de ignorar protestos despropositados. Se realmente a transposição é todo o absurdo que a sumidade em questão julga ser, provavelmente teria sido possível organizar uma grande campanha nacional, de ampla repercussão, contra o projeto. Partir para a greve de fome, neste caso, me parece uma admissão de que este lado da discussão não conseguiu convencer quase ninguém, e só restou apelar para o sentimentalismo do povo brasileiro. E aí o bispo resolve glamourizar o seu regime e acha que, com este expediente simplório, pode interromper um projeto de bilhões de reais que vai afetar a vida de milhões de pessoas. No meu tempo, a gente dizia que quem quisesse chamar a atenção devia pintar a bunda de vermelho e sair nu pela rua. É inofensivo e vale no máximo uma detenção por atentado ao pudor. O passado tem algo a nos ensinar.
O bispo em greve de fome
Não há assunto mais chato do que a transposição do São Francisco. Eu já tentei ler algumas reportagens sobre o assunto, mas é tudo tão entediante que não consegui terminar a maior parte delas. Pelo pouco que sei, parece haver argumentos razoáveis tanto a favor como contra o projeto. Não me parece um absurdo fazer a obra, como também não parece um absurdo não fazer. Mas surge então um bispo que decidiu se tornar mártir. Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra, na Bahia, está desde 26 de setembro em greve de fome contra a transposição do São Francisco. A medida me parece um pouco radical demais; ele é contra a obra, vive na região há muito tempo, ok, mas entrar em greve de fome? Bom, cada um protesta como quer. O que não pode é o governo mudar de opinião por causa disso. Lula já fez demais ao enviar a carta ao bispo. Deveria ter ignorado. O bispo também parece ter errado o timing: se era para entrar em greve de fome, que o fizesse logo depois do anúncio de que o projeto seria iniciado. E veja que coisa chata: o bispo faz aniversário amanhã. Como está em greve de fome, não vai poder nem comer um bolinho
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