A ascensão irresistível de um blog
Caros e raros leitores Convidados pelo mestre Ruy Goiaba, mudamos o Torre de Marfim para o Apostos, uma excelente comunidade blogueira. Nossa única crítica aos nossos novos hospedeiros é marxista: por que diabos nos aceitaram como sócios? De qualquer forma, cliquem aqui e visitem-nos na casa nova de agora em diante. A migração ainda não está completa, mas em breve - se meu pequeno cérebro de brontossauro entendeu o espírito da coisa - todos estes maravilhosos posts que vocês podem desfrutar aqui também lá resplandecerão. Por favor, acessem e comentem muito. Somos supercarentes, como vocês já devem ter percebido. Abraços a todos
Homenagem a Catalunha
Os prédios de Gaudí sao lindos e sempre surpreendentes. Miró era um grande pintor. Barcelona é uma cidade pulsante. Mas tudo isso você já sabe porque conhece Barcelona ou porque leu sobre a cidade. Eu nao vou ficar chovendo no molhado. Em vez de dizer como a arquitetura de Gaudí é brilhante - e eu acho que realmente é -, vou contar aos nossos 3,5 leitores o que notei de diferente em Barcelona desta vez. 1. Além de ter uma sonoridade parecida com o português de Portugal, o catalao tambem mostra uma semelhanca improvável com o mussumês. Sim, eu me refiro ao dialeto criado pelo Mussum. Tudo o que eu leio em catalao me lembra o homem que descobriu o forévis. Eu saio na rua e me deparo com palavras como tabacs, estudis, calçats, socis. E se em vez de ter sido um homem de poucas letras o falecido parceiro do Didi foi alfabetizado em catalao? Isso talvez explique seu modo particular de pronunciar as palavras. Eu sei que é improvável, mas me seduz a idéia de um Mussum filho de um catalao comunista exilado no Brasil com uma negra brasileira. 2. O mullet faz um sucesso danado por aqui. Barcelona parece uma sucursal capilar de Buenos Aires. Quase todos os homens cultivam um cabelo comprido. Muito em voga também o visual Chitaozinho, para homens e mulheres. 3. As catalas nao sao especialmente bonitas nem especialmente feias, mas todas sao peruas. Boa parte das mulheres é adepta do visual puta involuntária: mini-saia curta, botas longas e pintura pesada, mesmo antes do almoço. 4. Os barceloneses sabem andar de metrô. Para mim, esse é um dos indicadores mais importantes de civilidade de um povo. Antes de tentar entrar no trem, as pessoas esperam calmamente a saída de quem está dentro do vagao. Em Sao Paulo, o metro existe há mais de 20 anos, mas o paulistano ainda nao aprendeu a fazer isso. Quando a porta se abre na estaçao da Sé, é um salve-se quem puder PS: Escrevi em um teclado em que nao há til
Sabedoria perene
Mais dois aforismos do insuperável Anacleto de Avignon: A maturidade consiste em aceitar o inaceitávelO homem só domina as atividades em que presta atenção, sem prestar atenção** uma versão ligeiramente diferente, que alguns especialistas consideram a autêntica, é: O homem só domina as atividades em que, distraidamente, presta atenção
Desapertem o cinto e salve-se quem puder II
O Oswaldo Montenegro é um caso curioso. Ele canta mal, compõe mal, se veste mal, tem um cabelo alisado por obra de uma escova ou chapinha, mas mantém uma legião de fãs. Por que alguém gosta do Oswaldo Montenegro? O sucesso dele é um mistério. Eu nunca cheguei à conclusão de quem é pior: se ele, Guilherme Arantes ou Gonzaguinha. Acho que o Gonzaguinha lidera na disputa pelo pior verso da MPB de todos os tempos: “a gente não está com a bunda exposta na janela para passar a mão nela”. Tem algum pior?
Desapertem o cinto e salve-se quem puder
Esqueçam a crise da Varig. A situação da Tam é muito pior. Agora, antes de decolar e depois de pousar, os passageiros da companhia aérea que se orgulha de ser brasileira são obrigados a ouvir, em alto volume, músicas e declamações do Oswaldo Montenegro. Foi assim que entrei em contato com novas e intrigantes pérolas do nosso cancioneiro, como, por exemplo Eu descobriOlhando o milho verdeMãe e paiQue hoje é dia de rockMeu Deus, por que me abandonaste?
Medo de mulher III
É fácil. São lésbicas que não têm coragem de sair do armário no mundo muçulmano. Elas se matam na expectativa de que haja 72 virgens à sua espera. Mas parece que o Alcorão não é claro sobre esse ponto
Medo de mulher
Leio que o Irã teria um exército de homens-bomba para atacar alvos ocidentais caso o país seja bombardeado. Haveria 40 mil voluntários treinados para a nobre missão de matar inocentes. O número diz muito sobre a qualidade de vida no Irã. Muita gente vê o homem-bomba como um fanático que se sacrifica por uma causa. De algum modo, o suicida seria um idealista. Que nada. Não há nada de idealista num sujeito que se mata acreditando que há 72 virgens à sua espera no Paraíso. O terrorista islâmico age movido por interesse próprio. É coisa de punheteiro que tem medo de mulher. Só alguém que não tem a mínima experiência acha que sexo com virgem é algo divino. Como disse Salman Rushdie, “os homens islâmicos morrem de medo de mulher, têm pavor da liberdade sexual das mulheres.” De fundamentalismo islâmico Salman Rushdie entende
Função sexual do teatro V
Bem, é direito do Gerald Thomas conduzir o rabo e a carreira como melhor lhe aprouver. Pena que ele não nos divirta tanto nos 'espetáculos' quanto nas entrevistas
Função sexual do teatro IV
Mas calma. Para compensar o fato de o Antunes ser um homme à femmes, nós temos o Zé Celso, que namora um ator de seu grupo. O Gerald Thomas, por sua vez, joga nos dois times. Traça todas as atrizes com quem trabalha, mas já disse, nesta entrevista ao Nomínimo, que o Hélio Oiticica o “comeu para caralho” quando ele tinha 13 anos. Mas ele não ficou daquele jeito por causa disso. Segundo Gerald, o relacionamento com o Hélio Oiticica não só não o perturbou como “quebrou um preconceito logo de cara e não tinha problema nenhum”. Não é bonito?
Função sexual do teatro III
Ah bom. E eu que sempre pensei que a menina nua no Chapeuzinho Vermelho fosse uma apelação gratuita
Função sexual do teatro II
Nem todos os diretores brasileiros são viados. O Antunes Filho, por incrível que pareça, tem fama de comedor
Função sexual do teatro
E por falar nas menininhas gostosas no teatro de vanguarda, me parece até um certo desperdício, já que os diretores são viados (sic). Nem aquela interessante e sórdida troca de favores sexuais por empurrãozinho na carreira a gente vê na nossa cena teatral
Minha experiência no mundo do teatro II
Eu confesso que, boçalóide que sou, vou muito pouco ao teatro. Lembro-me vagamente de ter sido arrastado a peças do Gerald Thomas, do Abujamra e do Antunes Filho, que me pareceram chatas e irrelevantes, ao ponto de, hoje, eu ser incapaz de me lembrar de qualquer cena ou fala. Pode parecer incrível, mas eu não me lembro nem da fumaça do Gerald Thomas e tenho dúvidas (juro!) sobre se já fui ou não a uma peça do Zé Celso. Agora, só de pensar no assunto, uma coisa ou outra ressurge dos precipícios da memória inútil. Tinha uma mulher pelada na peça do Antunes que eu vi. Jovencito que eu era, e sendo a menina uma lourinha diáfana, foi uma experiência agradável (em que pese a saqueira de todo o resto do 'espetáculo', versando - súbito recordo - sobre Chapeuzinho Vermelho, esta inesgotável fonte de inspiração aos grandes gênios dramáticos da humanidade, a exigir sempre novas e revolucionárias releituras, que dêem conta da densidade quase que insuportavelmente metafísica do triângulo lobo-vovó-menininha). A do Abujamra, se não me engano, era a Cláudia Abreu como Hamlet, e por mais que ela se esforçasse para dar à sua interpretação uma carga dramática à altura, eu fiquei pensando o tempo todo como tudo o que aquela carinha bonita conseguia era passar a impressão de uma colegial fofa e tão mais tesudinha quanto mais se esforçava - como boa aluna, que eventualmente até dá para o professor se achar que faz parte da sua missão - para cumprir aquela tarefa totalmente além da sua capacidade. Bem, foi isto o que me ficou do teatro experimental brasileiro - uma que outra recordação levemente erótica de umas menininhas bonitas que achavam "importante para sua carreira" trabalhar com os monstros sagrados da nossa arte dramática. Tem coisas piores na vida
Minha experiência no mundo do teatro
Ao mencionar Gerald Thomas num post abaixo, eu me lembrei de que já fui namorado de atriz. Foi um período curioso. Eu rapidamente aprendi que gente de teatro não diz peça. O certo é espetáculo, mesmo que seja algo montado num espaço imundo, com atores de quinta categoria encenando um texto experimental de um dramaturgo desconhecido do interior do Piauí. Eu gosto de teatro, antes que me entendam mal. Vi bons espetáculos com a minha ex-namorada. Mas a verdade é que assisti a coisas horrorosas. Talvez a pior de todas tenha sido Freud Anna, um espetáculo dançante sem diálogos baseado na relação entre o velho Sigmund e sua filha. Juro que não estou inventando. Tentei dormir, mas a música não deixou. Foi nessa época que vi uma peça do Zé Celso (eu sei, eu sei, mas foi só uma vez) - Mistério Gozoso, de Oswald de Andrade. Poucas vezes assisti a algo tão amador. Os atores mal sabiam falar. E foi no Teatro Oficina, um dos piores espaços cênicos já construídos pelo ser humano. A encenação ocorre num corredor, e o público fica sentado nas laterais, como se estivesse numa arquibancada de campo de várzea. A grande virtude é que o espetáculo só tinha uma hora e meia, e não as cinco horas habituais das peças do diretor dionisíaco. O pior eram as peças amadoras dos amigos dela, quase sempre experimentais. No começo, eu ficava encabulado, principalmente quando queriam saber o que eu tinha achado. Mas tudo ficou mais fácil quando o namorado de uma outra atriz me ensinou uma estratégia infalível: “Quando pedirem sua opinião, é fácil. Diga sempre: no gênero, nunca vi nada igual.” Grande frase: deixava o interlocutor feliz e não me obrigava a mentir. Afinal, que outra resposta melhor eu poderia dar para uma adaptação de Dom Casmurro com todo mundo nu? Para um Édipo Rei sem diálogos, usando a linguagem de quadrinhos? E para uma versão de Hamlet com o príncipe interpretado por um travesti? No gênero, nunca vi nada igual
Que que eu acho? Vou consultar
Outro dia eu fiz um post desaforado, irritadiço e mal-educado, citando as frases iniciais de um artigo do psicanalista (julgo eu) argentino (idem) Contardo Calligaris, já nem me lembro direito sobre o quê. Me irritou a linguagem pomposamente intelectualóide do trecho mencionado. Pois bem, agora é a vez de elogiar. O artigo dele da Folha de hoje (não dá para linkar porque o site é pago) é exemplar, tratando do cansaço de pensar e julgar por si mesmo, que faz com que as pessoas terceirizem as suas cabeças, aderindo de forma apaixonadamente desmiolada (no sentido literal) a todo tipo de agrupamento "ideológico" (muito lato sensu, por favor), de torcidas organizadas a partidos políticos e (acrescento eu) seitas religiosas e místicas. Vai um pequeno trecho "na mosca" do artigo, abaixo: "Jorge Bittar, deputado do PT, não gostou do relatório da CPI dos Correios (ou seja, achou que o relatório não era partidário como ele queria que fosse) e xingou o senador Delcídio Amaral, presidente da dita CPI, também do PT. Além das palavras chulas -as quais substituem uma violência que, num Estado democrático, não pode ser física (não dá para eliminar Delcídio, eh?)-, ele disse (frase impagável) que o senador não se portou "como um verdadeiro petista".Para quem desiste de ser sujeito para se fazer instrumento do grupo, o outro, o que escuta seu foro íntimo, é um "traidor". Não é a Câmara, mas o PT que deve condenar oficialmente as palavras de Jorge Bittar. Ou então deveremos entender que o PT é um daqueles grupos que oferecem férias à subjetividade de seus membros, ou seja, que pedem que eles ajam não segundo a complexidade da consciência, não segundo o que lhes parece certo ou errado, mas só como instrumentos ao serviço do partido".
Elogio ao Guia Genial III
Além de o salvamento da Varig ser um assalto aos cofres públicos, há outros motivos para condenar o resgate da empresa. Um deles - talvez o mais nobre - é que o Gerald Thomas é a favor. Ele organizou uma manifestação em que vários artistas brasileiros pediram que o governo ajude a companhia quebrada. Dessa vez, Gerald não mostrou a bunda, mas teve mais um chilique. “Quando o Lula fala que é a falência de uma companhia, ele está decretando a falência do próprio Brasil. Ele está decretando uma auto-falência. Lula, aqui para você”, disse o gênio, mostrando o dedo médio. Além de Gerald Thomas, participaram do protesto atores como Marco Nanini, Irene Ravache e Marieta Severo, a jogadora de vôlei Virna e o coreógrafo Carlinhos de Jesus. Fiquei curioso para saber a opinião da Virna e do Carlinhos de Jesus sobre o assunto, mas os jornais não os entrevistaram a respeito. Mas por que tanta solidariedade à empresa? O blog de Gerald deixa claro os motivos da comunidade artística brasileira, sem nenhum subterfúgio: “Convoco todos os artistas (atores, atrizes, comediantes, bandas de rock, country e o diabo) que ‘mamaram’ na Varig por anos a fio através de patrocinio direto ou através de apoio que SE MANIFESTEM AGORA!!!! Nao sejam covardes! Agora é a hora! RETRIBUAM!” Elementar, caro leitor: o que move os artistas é o medo de perder uma boquinha. Eis mais um motivo para torcer pelo fim da Varig. Quem sabe assim fica mais difícil para o Gerald Thomas montar suas peças? PS: Eu vou confessar uma coisa: torço para que a crise da Varig chegue ao fim não tanto por acreditar que o governo não deve salvar empresa falida, mas principalmente porque o assunto sairia mais rapidamente do noticiário. A crise da Varig é o terceiro assunto mais chato de todos os tempos. Perde apenas para o caso Opportunity-Daniel Dantas-Brasil Telecom-fundos de pensão-Telecom Itália, que vem em segundo lugar, e para o descruzamento das participações acionárias da Vale do Rio Doce e da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o líder do ranking
Elogio ao Guia Genial II
Elaborei um plano para solucionar definitivamente o caso Varig, evitando o uso de dinheiro público. Na verdade, haveria algum gasto inicial, mas a idéia é justamente criar as condições para que isto não se repita no futuro. Eu não deveria fazer esta confidência, mas meu projeto está neste exato momento em avaliação pela Casa Civil da Presidência da República. A grande virtude do "plano Arranhaponte" (como já vem sendo informalmente chamado) para a Varig é a simplicidade. Consiste basicamente em três pontos: 1) Intensos bombardeios com napalm e bombas inteligentes dos hangares, aeronaves, escritórios e instalações em geral da Varig, com particular fúria no caso da Fundação Ruben Berta2) Tomada geral do que restar, com a ordem expressa de não fazer prisioneiros 3) Salgar a terra onde um dia vicejou a extinta empresa aérea P.S: Admito desde já que o plano não é perfeito, e estou aberto a críticas. Um consultor conhecido, depois de ler o projeto, previu que, se medidas mais drásticas não forem tomadas, a Varig voltará com força total em menos de um ano depois da aplicação do "plano Arranhaponte", com redobrada ameaça aos cofres públicos. Comentários e sugestões de aperfeiçoamentos são bem-vindos P.S2: Talvez devêssemos poupar os aviões, para pagar os credores. Como a maioria das aeronaves não deve ter sido paga, porém, provavelmente elas teriam que retornar aos fabricantes. E quem vende fiado para a Varig não merece receber avião de volta. Pensando bem, caso haja credores entre os sultanatos e emirados do Oriente Médio, talvez fosse o caso também de preservar uma ou outra aeromoça mais gostosa, para quitação de dívidas
Elogio ao Guia Genial
Eu estou emocionado. Lula está muito próximo de dar uma dentro. “Não é papel do governo salvar empresa falida”, disse ontem o Guia Genial, ao comentar os problemas da Varig. Capitalismo é assim. A empresa não consegue andar com as próprias pernas? Que arrume uma solução de mercado. A lei de falências está aí para permitir uma recuperação das companhias que quebraram. Pode ser que o governo dê para trás, mas, até o momento, parece que não haverá injeção de dinheiro público numa empresa que deve R$ 8 bilhões. Não ajudar a Varig será uma das maiores realizações de Lula, o que dá uma idéia do nível do governo
Soy loco por ti América II
"Me aguarde, Matamoros!"(Reverendo Anthony Garotinho, pastor nacionalista e flagelo dos bancos)
Soy loco por ti, América
A América Latina não consegue resistir ao ridículo. A bola da vez é o Peru. O nacionalista Ollanta Humala deve vencer o primeiro turno das eleições presidenciais marcadas para amanhã. Amigo de Chávez, tem idéias modernas, como fica claro na entrevista concedida à revista alemã Der Spiegel e publicada ontem no Estado. Além de repetir palavras de ordem contra o neoliberalismo que talvez constrangessem os integrantes da UNE, Humala mostra que se prepara para conduzir o Peru ao século XIX: "Nós somos as vítimas de um capitalismo descontrolado. A concorrência das multinacionais está destruindo nossas indústrias, explorando nossos recursos e nos forçando a ser uma economia de exportação". Humala pode fazer um grupo de estudos com Chávez e Evo Morales para discutir As veias abertas da América Latina. Se já tiverem lançado uma versão ilustrada do livro, Lula também pode participar. Mas o principal mesmo é o nome do sujeito. Como alguém pode votar em alguém que se chama Ollanta Humala? Para ficar ainda mais grotesco, um de seus irmãos atende por Antauro. Como disse o poeta chileno Hernando Persona: "todos os países da América Latina são ridículos. Não seriam países da América Latina se não fossem ridículos"
Miolo mole e crime II
Eu vou discorrer sobre o óbvio, porque a obviedade parece inacessível à maior parte dos brasileiros quando se trata de discutir a criminalidade. Vamos supor que a desigualdade social seja realmente a principal causa do problema. Vamos supor também que o Brasil comece a reduzir com muita rapidez a desigualdade social, encurtando fortemente a distância entre ricos e pobres. Mas, mesmo nesse cenário otimista - e improvável -, o país vai demorar muito para atingir um quadro razoável em termos de desigualdade, já que, como até o asfalto da Vieira Souto sabe, o Brasil é muito desigual. A conclusão óbvia? Enquanto nós não nos tornamos um país nórdico em distribuição de renda, é necessário combater os outros fatores que provocam a criminalidade. Tornar mais severas as punições para crimes hediondos é uma delas - e o Supremo Tribunal (STF) fez o oposto há algumas semanas, ao considerar inconstitucional que o condenado por esses crimes tenha que cumprir toda a pena em regime fechado. Atacar as outras causas do problema não é achar que ele não é complexo; é apenas não adotar a estratégia do miolo mole, como definiu o Arranhaponte. Mas, em vez de fazer óbvio, a gente não faz nada
Miolo mole e crime
Quebrando uma regra de conduta aqui (sorry Matamoros), vou fazer uma dobradinha do post anterior 07/04/2006 - 19h18mTiroteio em Copacabana: condenado a 17 anos, ladrão cumpriu 10 e fugiu da prisãoGlobo OnlineRio - De acordo com investigações iniciais, o ladrão morto nesta quinta-feira em Copacabana, Sudário Cândido Dutra Ferreira, de 35 anos, havia sido condenado por vários crimes , cuja soma das sentenças dava um total de 17 anos e nove meses de reclusão, mas cumpriu apenas dez anos e oit meses e 28 dias. Mesmo tendo na sua ficha criminal a condição de foragido, Sudário, depois de ser preso novamente e condenado por mais um crime, cumpriu parte da pena e conseguiu a progressão para regime semi-aberto, do qual se aproveitou para fugir.O Sudário tem 15 anotações criminais e sete mandados de prisão. Já foi condenado por furto e indiciado por estelionato, falsa identidade, tentativa de homicídio, ameaça e lesão corporal. Detalhe: ele já tinha fugido da prisão uma vez, antes de ser preso de novo, obter regime semi-aberto, e fugir de novo. Legal, regime semi-aberto para um ex-foragido. Tenho um irmão que mora na Holanda, e que me contou que, quando um preso em liberdade condicional comete um assassinato ou algum crime grave, o país vem abaixo, o assunto rende manchete de jornal durante semanas. Nos EUA, por ter assinado a liberdade condicional de um sujeito que saiu da cadeia e matou, o Dukakis perdeu uma preciosa montanha de votos na sua derrota para o Bush 1 em 1988. No Brasil, um foragido da Justiça, que só fugiu porque estava em regime semi-aberto, provoca um episódio de violência no qual 5 pessoas são baleadas, duas morrem (um inocente e ele mesmo), outra está em estado gravíssimo (um policial) e uma outra ainda em estado grave. Agora, vê se algum dos intelectuais que choramingam de roupa branca em passeatas de dondocas na orla da praia pedindo pazzzzzz aos chefes das facções criminais vai fazer algum comentário sobre a cagada que foi conceder regime semi-aberto para o Sudário. Aliás, vê se haverá alguma discussão, mínima que seja, na imprensa ou em qualquer lugar, sobre o tema. É o que eu digo, meus amigos, contratem seguranças, aprendam a atirar ou tirem da gaveta seus passaportes italianos. Não tem o menor risco de melhorar
Variações sobre o miolo mole
Uma vez o José Guilherme Merquior disse que o Caetano Veloso era um “pseudo-intelectual de miolo mole”. Lembro-me do Caetano, de forma incomum, comentar o epíteto com humorada auto-depreciação, e concordar com ele até certo ponto. Na falta de melhores palavras, adoto o miolo mole para a descrição geral de um certo tipo de pensamento nacional Miolo mole e Economia – Até o início da década de 90, o miolo mole na economia consistia em achar que inflação nada tinha a ver com o governo gastar o que não tem e com a economia estar aquecida. Portanto, controlar o déficit público e aumentar os juros eram considerados uma terapia inócua e estúpida para conter a escalada dos preços. Resultado do miolo mole na economia: hiperinflaçãoMiolo mole e Crime – Os formadores de opinião e tomadores de decisão hegemônicos na área criminal – jornalistas, intelectuais, um ou outro puliça mais articulado, juízes, advogados, promotores, juristas em geral, políticos, governantes, etc – no Brasil seguem dois princípios básicos: 1) A intensidade de um fator nada tem a ver com a intensidade do seu efeito 2) Se alguma coisa tem duas importantes causas, “não adianta nada” atacar uma delas, porque a causa é a outra Dois exemplos deste pensamento que nada têm a ver com crime, para começar: 1) Se eu quero aprender latim, tenho que ter aulas, mas tanto faz estudar uma hora por mês ou dez horas por semana 2) Se eu estou com o colesterol alto e resolvi me exercitar, “não adianta nada", porque a causa do colesterol é a alimentação Dois exemplos deste pensamento em relação ao crime: 1) Se eu quero reduzir a taxa de assassinatos, eu devo prender os assassinos, mas tanto faz que a punição média seja cinco ou 50 anos 2) Tornar mais severas as punições ao crime “não adianta nada”, porque a causa do crime é a desigualdade social Resultado do miolo mole no combate ao crime: Rio de JaneiroForam precisos uns 15 anos para que saíssemos da etapa de miolo mole total em Economia até um grau aceitável de superação de alguns problemas primitivos nesta área. Em combate ao crime, acho que estamos ainda na era Funaro, quiçá antes. Acho melhor vocês contratarem um guarda-costas e blindarem os seus carros
Pagando mico no espaço II
E pronto, rolou presepada no espaço. Eu ouvi dizer que o chapéu de Santos Dumont tinha sido vetado, porque poderia carregar germes para o interior da nave. Mas o nosso astronauta conseguiu levar o seu troféuzinho brega para dentro. Assim como somos bons em surrupiar um par de meias de uma loja de departamentos, também não temos dificuldade em introduzir uma baboseira proibida numa nave espacial. E viva a malandragem! Agora eu fico pensando por que os nossos homens de destaque têm sempre que ser daquele tipo que faz, feliz da vida, tudo o que o Fantástico pede pra fazer. E se de repente, por acaso, o astronauta brasileiro fosse um tipo taciturno e mordaz, que trataria com ironia mal-humorada os repórteres da Globo, e praticaria pequenos atos punk, para delícia de brasileiros complexados como eu? Eu fico imaginando. O cara promete uma surpresa ao vivo para o Fantástico, e na hora, com 50 milhões de brazucas assistindo, ele tira da algibeira uma réplica do avião dos irmãos Wright, em homenagem aos verdadeiros pais da Aviação. Quando a realidade é muito opressiva, só nos resta sonhar P.S: Massacrem-me, leitores, se a história da proibição do chapéu do Santos Dumont não é bem assim
Pagando mico no espaço
Toda essa história do astronauta brasileiro me parece bastante ridícula. E, depois de descobrir que uma das experiências a serem realizadas pelo nosso herói é a germinação de sementes de feijão num ambiente sem gravidade, tudo ficou ainda mais grotesco. Será que ele colocou o feijão em cima de um algodãozinho molhado? É cretino, mas eu imagino o astronauta usando um daqueles conjuntos infantis tipo O pequeno químico para fazer experiências sofisticadas como o sangue do diabo. Brasileiro paga mico até no espaço. E a missão me lembra aquelas piadas infames - além do brasileiro, há um americano e um russo. Eu já imaginei o começo da piada, aliás. Falta apenas o desfecho – ou seja, tudo: “Numa nave espacial, estão um astronauta brasileiro, um americano e um russo. A nave sofre uma pane, e dois astronautas terão que ser sacrificados para que a missão seja terminada. Os três chegam a um acordo: quem tiver o presidente mais esperto, se salva”. Putin, Bush e Lula me parecem talhados para fazer parte de uma piada. O diabo é que não consegui pensar num final, por mais infame que seja. Alguém tem alguma idéia? PS: Quanto à importância da missão, assino embaixo o que escreveu o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão: “O vôo de Marcos Pontes é uma grande jogada eleitoreira do governo. Ela não irá contribuir em nada para reafirmar o programa espacial brasileiro. Pontes poderia ir ao espaço em 2009, de graça, sem pagar os US$ 10 milhões, se o Brasil tivesse cumprido o acordo de construir algumas peças para a ISS. É mais importante cumprir essa tarefa do que enviar um brasileiro ao espaço, pois ela irá gerar um desenvolvimento tecnológico no Brasil. Muito mais importante é destinar recursos para tornar realidade nosso programa espacial. Há mais de 10 anos, o nosso veículo lançador de satélites, o VLS, está sofrendo uma 'sabotagem governamental', pois as verbas foram reduzidas no fim do governo Sarney, que estabeleceu o acordo de colaboração espacial durante visita à China".
Demagogia incompetente
As propostas da esquerda no Brasil são sempre divertidas. Na semana passada, PSOL e PSTU realizaram um encontro para discutir, vá lá, idéias. Eu só li a reportagem da Folha sobre o seminário hoje, reproduzida pelo FYI. Algumas das propostas são brilhantes. Uma das mais inteligentes é pedir que sejam classificados como crimes hediondos os assassinatos de pais e mães de santo que ocorrem pelo país. Outras idéias visam melhorar a educação no Brasil: adotar o estudo obrigatório da história da África e da cultura do povo afrodescendente no ensino fundamental e o fim do ensino pago. Uma das que mais me chamaram a atenção foi o aumento do salário mínimo para R$ 1,6 mil. Eu gostei principalmente por mostrar a mediocridade dos esquerdinhas radicais. Todo mundo que não é débil mental sabe que é inviável um salário mínimo desse valor, porque a Previdência e os Estados e prefeituras pobres quebrariam. Se a idéia é sugerir um valor absurdo, por que R$ 1,6 mil, um salário meia boca? Inviável por inviável, por que não propor R$ 10 mil, R$ 20 mil ou R$ 30 mil? Mas não. A mediocridade não deixa. A esquerda é incompetente até mesmo para fazer demagogia
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