Aquele abraço II
Em 1986, o naturalista Augusto Ruschi, seriamente enfermo, em consequência de seqüelas de esquistossomose e malária, e alegadamente contaminado por veneno de sapos dendrobatas, submeteu-se à famosa "pajelança", ritual indígena no qual foram utilizadas ervas e raízes com poderes curativos.
No Parque da Cidade do Rio, com grande cobertura da mídia, a pajelança teve como ponto alto a cena em que o cacique Raoni e o pajé Sapaim expeliam fumaça de cigarros de folhas na cara de Ruschi, massageavam-no com ungüentos e entoavam cânticos indígenas.
Lembro-me bem do episódio, e, principalmente, de como boa parte da opinião pública do país, conduzida por jornalistas, articulistas e intelectuais, emocionou-se e acreditou para valer que os índios curariam Ruschi de males para os quais a medicina ocidental não tinha resposta. O naturalista morreu logo depois, de cirrose hepática, e sem que tivessem sido encontrados em seu corpo quaisquer traços de veneno de sapo ou de outros animais.
Para mim, a pajelança do Ruschi é emblemática de um certo tipo de comportamento coletivo nosso, no qual, numa espécie de transe, a nação se convence de que, de uma forma mágica, na linha de "o melhor do Brasil é o brasileiro", vamos realizar coisas prodigiosas, mostrar ao mundo que temos respostas para grandes problemas da humanidade que jamais foram cogitadas, que trazemos dentro de nós a semente de transformações revolucionárias, etc, etc.
O plano Cruzado, por exemplo, foi a nossa pajelança econômica. Provamos aos gringos cinzentos e repressores que era possível acabar com a inflação e deslanchar um fabuloso espetáculo de crescimento sem nenhuma dor, sem nenhuma restrição fiscal, sem nenhum juro alto, mas simplesmente botando para funcionar o entusiasmo e a energia de um povo alegre e criativo.
A eleição de Lula, por sua vez, foi a pajelança política. Elegendo-se um pobre puro, saído das entranhas da digna miséria deste povo maravilhoso, o sistema político podre iria se regenerar, a corrupção seria exterminada, e o Brasil mostraria enfim que um outro mundo é possível, uma Terceira Via mulata e morena, plena de dinamismo econômico, alegria de viver e quadris balançantes.
Em todos estes episódios, uma euforia inebriante toma conta do país, e a gente quase chora sozinho, andando na rua, ao pensar que enfim - enfim! - o mundo vai nos dar o justo valor. E sempre, inevitavelmente, uma ressaca rancorosa e derrotista segue-se ao delírio megalômano, depois do fracasso óbvio de idéias e projetos concebidos na confusa gelatina do miolo mole nacional.
Tudo isto para dizer que a candidatura do Gilberto Gil ao governo do Rio de Janeiro - meio que a idéia de que uma abordagem tropicalista seria a solução para a barbárie infernal que progressivamente toma conta da cidade - é apenas mais uma pajelança, e das mais fraquinhas
No Parque da Cidade do Rio, com grande cobertura da mídia, a pajelança teve como ponto alto a cena em que o cacique Raoni e o pajé Sapaim expeliam fumaça de cigarros de folhas na cara de Ruschi, massageavam-no com ungüentos e entoavam cânticos indígenas.
Lembro-me bem do episódio, e, principalmente, de como boa parte da opinião pública do país, conduzida por jornalistas, articulistas e intelectuais, emocionou-se e acreditou para valer que os índios curariam Ruschi de males para os quais a medicina ocidental não tinha resposta. O naturalista morreu logo depois, de cirrose hepática, e sem que tivessem sido encontrados em seu corpo quaisquer traços de veneno de sapo ou de outros animais.
Para mim, a pajelança do Ruschi é emblemática de um certo tipo de comportamento coletivo nosso, no qual, numa espécie de transe, a nação se convence de que, de uma forma mágica, na linha de "o melhor do Brasil é o brasileiro", vamos realizar coisas prodigiosas, mostrar ao mundo que temos respostas para grandes problemas da humanidade que jamais foram cogitadas, que trazemos dentro de nós a semente de transformações revolucionárias, etc, etc.
O plano Cruzado, por exemplo, foi a nossa pajelança econômica. Provamos aos gringos cinzentos e repressores que era possível acabar com a inflação e deslanchar um fabuloso espetáculo de crescimento sem nenhuma dor, sem nenhuma restrição fiscal, sem nenhum juro alto, mas simplesmente botando para funcionar o entusiasmo e a energia de um povo alegre e criativo.
A eleição de Lula, por sua vez, foi a pajelança política. Elegendo-se um pobre puro, saído das entranhas da digna miséria deste povo maravilhoso, o sistema político podre iria se regenerar, a corrupção seria exterminada, e o Brasil mostraria enfim que um outro mundo é possível, uma Terceira Via mulata e morena, plena de dinamismo econômico, alegria de viver e quadris balançantes.
Em todos estes episódios, uma euforia inebriante toma conta do país, e a gente quase chora sozinho, andando na rua, ao pensar que enfim - enfim! - o mundo vai nos dar o justo valor. E sempre, inevitavelmente, uma ressaca rancorosa e derrotista segue-se ao delírio megalômano, depois do fracasso óbvio de idéias e projetos concebidos na confusa gelatina do miolo mole nacional.
Tudo isto para dizer que a candidatura do Gilberto Gil ao governo do Rio de Janeiro - meio que a idéia de que uma abordagem tropicalista seria a solução para a barbárie infernal que progressivamente toma conta da cidade - é apenas mais uma pajelança, e das mais fraquinhas



3 Comments:
Só para dizer que esses popups estão ficando irritantes. Hoje um deles apareceu mesmo usando Firefox. A culpa é do contador ali embaixo, que era Nedstat e desde que se tornou WebStats4U começou a colocar esses popups horríveis.
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Andrei Formiga, at 7:58 PM
E agora tem esse astronauta tupiniquim que vai fazer um monte de experiências na estação orbital, que, parece, nunca foram pensadas pelos gringos que há anos visitam o espaço. Como são burros esses americanos, russos, etc.
[]'s
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nelson, at 9:09 AM
Nelson, com o nosso astronauta, pela primeira vez, uma nave espacial terá um ambiente caloroso, simpático, festivo. Isto é muito mais importante do que reles descobertas científicas.
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F. Arranhaponte, at 4:04 PM
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