Academia? Que nojo II
Meio preconceituoso este seu comentário sobre os caubóis que agasalham croquete. Quanto ao Oscar, minha opinião vai na mesma linha do início do post "Titio Oscar" do Fernando, do Número 12: tenho filhas, não vou ao cinema. Ou melhor, vou, mas só a filmes infantis. E uma das minhas frustrações atuais é não ter interlocutores para discussões cabeça sobre os filmes de criança. Eu converso bastante com minhas filhas, mas com a esperteza das crianças, elas não dão a mínima bola para teorias blá-blá-blá.
Eu gosto de filmes aclamados pela crítica, como Os Incríveis, mas como todo intelectual de mesa de bar, curto também ter opiniões originais e discordantes, sobre as quais discorro com aquele ar vivido, blasé e sarcástico, de quem flutua acima da classe média pseudo-ilustrada. Uma das minhas teorias é que "Os Incríveis" peca por ter elementos cabeça que só interessam a adultos – que criança se preocupa com a mediocrização da vida de casais de classe média na meia-idade? Já Madagascar, muito inferior à primeira vista, suscitou uma discussão entre mim e minhas filhas de sete anos sobre instinto, discernimento, moralidade e a diferença entre o comportamento humano e dos animais, que durou para lá de uma hora.
Outra opinião original minha: o subestimado Sinbad revoluciona ao apresentar uma heroína com ar levemente safado que abandona um príncipe, do bem, para ficar com um bandido (também do bem, vá lá, mas não precisa chegar a Jean Genet em cinema infantil).
Mas o meu grande clássico infantil, que passou praticamente despercebido, e que vimos pela primeira de muitas vezes quando elas tinham três ou quatro anos, é Spirit, a história de um cavalo selvagem nas pradarias americanas (que naturalmente é capturado por soldados vilões). O filme é totalmente água com açúcar e politicamente correto, mas, apesar disto – ou talvez por isto mesmo – é um clássico na melhor acepção a palavra: uma história grandiosamente simples, sobre temas primordiais como liberdade, honra, sexualidade, destino e perda, e que não se preocupa em ser esperta, original, descolada, engraçadinha ou qualquer destas neuroses maneiristas e neurastênicas da modernidade.
Do ponto de vista técnico e plástico, Spirit é estonteante: a cena de uma locomotiva rolando morro abaixo e levando no arrasto todo um acampamento de trabalhadores é inesquecível. Mas o momento epifânico vem depois da sensacional perseguição dos soldados ao Spirit, com um indiozinho montado a pelo, em uma daquelas formações rochosas gigantescas típicas do Arizona. Quando fica acuado no alto e já não tem para onde ir, o Spirit dá um salto estupendo até a formação de pedra vizinha. Milagrosamente, alcança o outro lado com o indiozinho. Neste momento, um dos soldados levanta a espingarda para fuzilar o cavalo, mas o capitão (o grande vilão e inimigo) baixa a arma com um gesto altivo, em reconhecimento de que a nobreza selvagem do seu nêmesis merece viver, para além de qualquer conflito ideológico ou de civilizações.
Não sei se choraria em Brokeback Mountain, como o Matamoros, mas me derreto cada vez que revejo Spirit
PS: O longa do Bob Esponja, aclamadíssimo pela crítica (pelo menos as que eu li na época), é de fato genial
Eu gosto de filmes aclamados pela crítica, como Os Incríveis, mas como todo intelectual de mesa de bar, curto também ter opiniões originais e discordantes, sobre as quais discorro com aquele ar vivido, blasé e sarcástico, de quem flutua acima da classe média pseudo-ilustrada. Uma das minhas teorias é que "Os Incríveis" peca por ter elementos cabeça que só interessam a adultos – que criança se preocupa com a mediocrização da vida de casais de classe média na meia-idade? Já Madagascar, muito inferior à primeira vista, suscitou uma discussão entre mim e minhas filhas de sete anos sobre instinto, discernimento, moralidade e a diferença entre o comportamento humano e dos animais, que durou para lá de uma hora.
Outra opinião original minha: o subestimado Sinbad revoluciona ao apresentar uma heroína com ar levemente safado que abandona um príncipe, do bem, para ficar com um bandido (também do bem, vá lá, mas não precisa chegar a Jean Genet em cinema infantil).
Mas o meu grande clássico infantil, que passou praticamente despercebido, e que vimos pela primeira de muitas vezes quando elas tinham três ou quatro anos, é Spirit, a história de um cavalo selvagem nas pradarias americanas (que naturalmente é capturado por soldados vilões). O filme é totalmente água com açúcar e politicamente correto, mas, apesar disto – ou talvez por isto mesmo – é um clássico na melhor acepção a palavra: uma história grandiosamente simples, sobre temas primordiais como liberdade, honra, sexualidade, destino e perda, e que não se preocupa em ser esperta, original, descolada, engraçadinha ou qualquer destas neuroses maneiristas e neurastênicas da modernidade.
Do ponto de vista técnico e plástico, Spirit é estonteante: a cena de uma locomotiva rolando morro abaixo e levando no arrasto todo um acampamento de trabalhadores é inesquecível. Mas o momento epifânico vem depois da sensacional perseguição dos soldados ao Spirit, com um indiozinho montado a pelo, em uma daquelas formações rochosas gigantescas típicas do Arizona. Quando fica acuado no alto e já não tem para onde ir, o Spirit dá um salto estupendo até a formação de pedra vizinha. Milagrosamente, alcança o outro lado com o indiozinho. Neste momento, um dos soldados levanta a espingarda para fuzilar o cavalo, mas o capitão (o grande vilão e inimigo) baixa a arma com um gesto altivo, em reconhecimento de que a nobreza selvagem do seu nêmesis merece viver, para além de qualquer conflito ideológico ou de civilizações.
Não sei se choraria em Brokeback Mountain, como o Matamoros, mas me derreto cada vez que revejo Spirit
PS: O longa do Bob Esponja, aclamadíssimo pela crítica (pelo menos as que eu li na época), é de fato genial



11 Comments:
Ah, enfim, alguém com as mesmas limitações cinematográficas que eu!
Concordo que os Incríveis, embora seja uótimo, não é infantil.
Mas de resto vou ser bélico: não gosto do Spirit, muito embora o tenha assistido 312 vezes (minha filha maior tem só cinco, mas é brasileira, e não desiste nunca...). Não güento as musiquinhas do Paulo Ricardo que substituiu, mui propriamente, o seu equivalente americano Bryan Adams. A moralzinha dele também é mala – o exército, disciplinado e rígido, não serve para nada; o legal mesmo é o bunda-lê-lê da indiaiada. E viva o bon sauvage...
Prefiro o Robin Hood, da Disney, que não rouba dos ricos para dar aos pobres: rouba do governo bastardo, para devolver ao povo. E ainda por cima tem uma trilha sonora di catigoria.
Mas agora é esperar o Curious George que, dizem por aí, não é filme para a família – é filme para crianças. Veremos, veremos.
E abraços!
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Mauro, at 6:42 PM
Finalmente um interlocutor na seara dos filmes infantis! Fico tão feliz que nem vou polemizar sobre o Spirit - na verdade, o fato de ter sido a primeira ou a segunda vez que eu as levei ao cinema (na prática a primeira, porque a outra foi tão bosta que eu nem me lembro) pode estar na origem do transporte idílico que o filme em mim acarreta. Mas sua filha é que tem o meu apoio neste debate familiar. Abração!
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F. Arranhaponte, at 7:02 PM
PS: Como cinéfilo vagabundo, mal me lembro de qual seja a trilha sonora de Spirit, e muito menos sabia que era do Paulo Ricardo na versão brasileira - ainda bem, porque o encanto não resistiria a esta informação
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F. Arranhaponte, at 7:06 PM
Vocês dois podiam fazer uma versão do Cahiers du cinema apenas sobre filmes infantis, discutindo com profundidade as películas (desculpem, acho que ainda estou sob efeito de O segredo de Brokeback Mountain) para a criançada. Imaginem o dossiê Spirit, em que vocês descontroem o filme fotograma por fotograma, num debate que se arrasta por dezenas de páginas? Não tem como não ser um sucesso
Abraços
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Marcos Matamoros, at 7:10 PM
Arranhapontê, não sei não, mas senti uma ponta de ironia no comentário matamôrico. Talvez ele nos inveje por não termos que ir ver o Bareback Mountain e fingir que não é nada de mais, só para não passar por homofóbico chauvinista...
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Mauro, at 9:00 AM
Rolei de rir da moralidade de vcs dois contra preconceitos ao filme dos caubois viados. Mas nao eh preconceito naum, eh apenas uma questao contextual...Eu, por exemplo, quando fui assistir com o Craig, amigo meu, logo de incio, na vaga do estacionamento, sugeri: "entra de reh, pra jah chegar no clima!"
Becitos in tu!
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Roma Dewey, at 10:58 AM
É, assistir a Montanha de Curralinho virou uma espécie de teste de maturidade sexo-política. É a vantagem de fazer filhos: não temos que nos submeter a isso
Roma, querida, que foto arrasadora (eu já tinha visto no seu blog, mas aqui no nosso humilde lar, é um facho de luz em meio aos temas áridos e bizarros que teimamos em abordar)
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F. Arranhaponte, at 11:56 AM
...temas áridos e bizarros... hum, sei não. Acho que esse filme pega.
[]s
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nelson, at 2:40 PM
Vc já viu o Galinho Chicken Little? É uma graça e fala sobre a importância da confiança dos pais em seus filhos, eu fiquei apaixonada pelo galinho!
Abraços, Luciana.
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Lulu Mamba e suas najinhas, at 12:43 AM
Oi lulu mamba e suas najinhas, minhas filhas insistem em que é imprescindível que eu veja o Galinho Chicken Little com elas, já que elas foram com a avó. Entendi agora a razão. Beijos
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F. Arranhaponte, at 11:31 PM
Então são vocês, lulu mamba e suas najinhas danadinhas!
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F. Arranhaponte, at 2:03 PM
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