Quinta-feira, Dezembro 29, 2005

Os prazeres da carne II

Os vegetarianos são muito, muito maus. O pior cara de todos os tempos, um tal de Adolfo, era vegetariano fanático. Mas o rastro de destruição vai além. Muitos de vocês já devem ter ouvido falar no movimento vegan , a ala mais radical dos herbívoros – os caras não tomam mel nem usam lã, seda ou couro, destruindo muitos postos de trabalho no campo mundo afora. Uma vez eu li a entrevista de um líder vegan, que defendia a idéia de que a humanidade tem que diminuir dos atuais 6 bilhões e cacetada para uns 400 milhões. O objetivo, nas palavras literais do facínora, era o de “dar lugar aos animais e plantas”. Ele não disse muito bem como o plano seria implementado, mas para bom entendedor meia alface basta. E tem gente que acha que o Bin Laden é o grande perigo. Agora, a propósito do tema, tem uma obervação boa atribuída ao Guia Genial, do tempo em que ele era só comediante e líder da oposição, e apenas os mais empedernidos direitistas não curtiam as suas tiradas: “Vocês vejam só estes nossos companheiros petistas que são vegetarianos; se uma mulher chamar os caras para ir para trás de uma moita, eles dispensam a mulher e ficam com a moita”.



Os prazeres da carne

Por muitos e muitos anos, mantive uma atitude politicamente correta em relação aos vegetarianos. Nunca entendi muito bem como um sujeito pode preferir brócolis a picanha, mas tentava respeitar a diversidade de gosto gastronômico. Nos últimos tempos, porém, não tem sido fácil manter essa postura cordata. Eu estive no fim de semana em Buenos Aires, onde tomei vinhos deliciosos e comi carnes perfeitas. Numa dessas refeições memoráveis, eu me peguei pensando: se eu fosse vegetariano, teria de beber vinho numa refeição em que a pièce de résistance seria uma salada de alface com radicchio? O horror! O horror! Se é para comer mato, para que desperdiçar um bom vinho? Água de torneira serve. Às vezes, tenho dificuldade de esconder o sorriso de escárnio quando alguém diz que não come carne. O vegetariano me parece no fundo um pervertido. Você já acordou com vontade de comer rúcula e endívia? Eu não. Para mim, está claro: quem saliva diante de um prato de escarola tem algum problema



Terça-feira, Dezembro 27, 2005

Vida vira o jogo II

Eu reconheço que a história da coelha tem tudo para ser um sucesso de público. Além de violência e relações familiares conturbadas, há o primeiro caso de bestialismo lésbico da história. E é necessária a coragem de uma Antígona para dizer a frase que já nasceu clássica - e que sou obrigado a citar mais uma vez: "Eu amo mais minha coelha do que minha filha e meu marido". Imagine essa história nas mãos do Pedro Almodóvar?



Vida vira o jogo

Com minha proverbial volubilidade, súbito resolvi gostar de "Gia, uma paixão". Me peguei repetindo mentalmente o clímax dramático - "eu amo mais a minha coelha do que minha filha e meu marido", "eu amo mais a minha coelha do que minha filha e meu marido" -, rindo sozinho, e até, chavão dos chavões, pensando sobre o absurdo da existência. Acho que desde já Beckett e Ionesco estão destronados, e que Gia reinará absoluta no sublime reino da náusea literária



Ganhou a arte II

Eu tentei achar uma dimensão shakespeareana na comovente história de amor de uma mulher por sua coelha, mas confesso que não encontrei. Como diz uma personagem de Maridos e esposas, de Woody Allen: A vida não imita a arte. A vida imita um programa de televisão ruim (a citação não é exatamente essa, mas eu não a encontrei no Google. Se alguém se lembrar do trecho certinho, envie cartas à redação, por favor)



Segunda-feira, Dezembro 26, 2005

Ganhou a arte

"A estudante de artes cênicas Lívia, de 20 anos, filha da advogada Cláudia Marinho — acusada de agredir, torturar e manter em cárcere privado a veterinária Márcia Lilian Pereira de Lima por causa de uma coelha — está presa há três dias na Polinter, sob a acusação de ter participado do crime. A mãe, que não se apresentou a polícia, disse ao GLOBO, por telefone, que tudo não passou de uma briga e que as denúncias são um exagero. Cláudia alegou ter ficado desesperada quando sua coelha Gia começou a passar mal depois de receber um medicamento prescrito pela veterinária.
— Eu amo mais a minha coelha do que minha filha e meu marido — disse Cláudia."
(Daniel Engelbrecht, Jornal O Globo, 26 de dezembro de 2005)


A vida é um ficcionista de quinta categoria



Sábado, Dezembro 24, 2005

Miniconto de Natal



Vinha de manhã pelo Aterro do Flamengo em meu carro a uma velocidade compatível com a narcose da paisagem linda e do som de um piano na rádio MEC, protegido pelo ar condicionado do imenso calor do verão no Rio, quando tocou o celular e atendi o meu irmão. Sei lá do que ele estava falando quando notei um guarda, paramentado num destes uniformes garbosos, com tecido de camuflagem, me seguindo numa moto. Desliguei o celular. Eu estava bem devagar, o guarda também, e ele fez alguns gestos que não entendi se eram sinais de que iria entrar à direita em alguma saída lateral da pista, ou se eram para eu parar. Ele cruzou à minha frente e entrou no acesso à churrascaria Porcão, mas eu segui direto. O guarda imediatamente fez a volta e veio atrás de mim. Devagar. Eu também. Entendi definitivamente que queria que eu parasse e coloquei a setinha. Numa reta mais comprida, o guarda parou a moto e fez sinal para eu estacionar logo em frente.
Ele saltou, e eu fiquei dentro do carro, aspirando o frescor do ar condicionado enquanto catava meus documentos e os do carro. Quando o guarda chegou ao lado da porta, abri a janela, e o bafo quente do verão não me incomodou. Depois de um diálogo lacônico, bom-dia para cá e para lá, entreguei os documentos, ele examinou, estava tudo ok, e me devolveu. Perguntou:
- O sr. tem muitos pontos na carteira?
- Acho que não, sou pouco multado.
- O sargento te viu falando no celular, pediu pra eu te parar.
- Ok, tudo bem.
- Bem, tem uma multa.
- Você sabe mais ou menos quanto é?
- Uns duzentos e poucos reais (me disseram depois que foi mentira, que a multa é uns oitenta).
- É alta.
- O sr está apertado? (é uma pena, com minha memória de galinha esqueci a verdadeira expressão que ele usou para 'com a grana curta', que eu nunca tinha ouvido antes e que foi absolutamente pitoresca)
- Não, tudo bem, pode multar.
- O sr sabe como é, é Natal, todo mundo está apertado (ele usou de novo a expressão que eu esqueci). Olha, não quero te multar não. O sr entende, a gente está trabalhando neste calorão, é fim de ano. De repente a gente pode acertar qualquer coisa com o sargento.
Eu olhei para o guarda. Era um tipo magro, altivo, educado. Tinha um daqueles cintos cheios de armas, munições, sei lá o quê, mais apropriado a caçar traficantes do que a multar um inofensivo e pacato motorista. Ele estava tranqüilo. Tão tranqüilo quanto eu e aquela véspera de Natal no verde chapado do Aterro, com o vento quente agitando de forma hipnótica as folhas das árvores. Eu não ia pagar propina. Mas não queria ser antipático. Falei com o tom mais conciliatório que consegui sintetizar nas minhas cordas vocais:
- Olha, entendo perfeitamente a sua situação, a do sargento, mas, sabe, é contra os meus princípios. Pode me multar, não tem problema.
Ele me olhou sorridente, talvez irônico. E respondeu:
- Tudo bem, não vou multar o sr não. Pode ir.
Ninguém disse "feliz Natal". Esperei o guarda subir na moto e se afastar, no mesmo ritmo moroso de sempre. Dei a partida, religuei o piano da rádio MEC, e arranquei devagarzinho. O trânsito fluía bem, com relativamente poucos carros. Pensei em escrever um miniconto de Natal



Quarta-feira, Dezembro 21, 2005

Jurassic Park IV

Será que os dois homenzinhos no quadro do De Chirico são o Severino e o Lula? Francamente, acho que a candangada de Brasília seria barrada sem piedade na Piazza D'Italia. Aliás, com sua comparação de Brasília com os quadros do De Chirico, você extrapolou todos os limites do bom-senso, na tentativa de fazer média com os habitantes da capital. A esta altura, já devem estar imprimindo o seu diploma de cidadão brasiliense honorário. As minhocas e cobras do planalto central talvez tivessem um quê metafísico antes da chegada dos políticos nos anos 60, mas hoje, infelizmente, a coisa é bem mais rasteira



Jurassic Park III



Todo mundo lembra de Niemeyer quando desce o sarrafo em Brasília, mas, para fazer justiça histórica, Lúcio Costa é tão responsável pela desgraça quanto o stalinista decrépito. O meu bode em relação à Brasília se deve em grande parte à arquitetura kitsch e grandiloqüente de Niemeyer, mas a concepção do projeto piloto contribuiu para a sensação de opressão e agorafobia que me acometeu quando eu lá estive. Aliás, são Google me ensinou que Costa não quis que a cidade tivesse forma de avião, mas de borboleta. Eu nunca soube disso. Em sua última entrevista, dada ao Correio Braziliense, Costa protestou: "Não tem nada de avião! É como se fosse uma borboleta. Jamais foi um avião! Coisa ridícula! Seria inteiramente imbecil fazer uma cidade com forma de avião. Do triângulo da Praça dos Três Poderes, que é a cabeça da cidade, surgiu a Esplanada para receber esses prédios destinados aos Ministérios. Surgiu o Eixo Monumental, não num sentido pretensioso, numa plataforma mais elevada." Uma pergunta que me ocorreu: e uma cidade em forma de borboleta, também não seria inteiramente imbecil? Avião ou borboleta, helicóptero ou mariposa, Brasília me parece um quadro de De Chirico, com seu ambiente metafísico-opressivo. Quando vi A piazza d'Italia (a pintura que ilustra o post) pela primeira vez, percebi de onde Niemeyer e Costa tiraram inspiração para projetar Brasília. O único detalhe no quadro que desagradou ao velhinho stalinista foi a presença de gente, mas ele conseguiu evitar esse incômodo na cidade



Terça-feira, Dezembro 20, 2005

Jurassic Park II

"What was intended at the time to showcase a spirit of rationalism and modernity now showcases 1950s kitsch"
("O que foi concebido na época como um exemplo do espírito de racionalismo e modernidade hoje é um exemplo de kitsch dos anos 50 ")
The Economist, 18/12/1997, referindo-se à Brasília, em uma reportagem sobre capitais planejadas

É, tem este negócio dos caras liberados para falar merda: eu diria que o Niemeyer e o Lula são expoentes da categoria, se bem que, agora que seu governo se esboroou, o Guia Genial anda mais patrulhado. O Niemeyer, por outro lado, tem a arquitetura maravilhosa, aquela concretada kitsch, sem nenhuma relação com o ambiente natural, dentro da qual o nosso peito estufa de orgulho e nossas narinas aspiram a atmosfera de ar condicionado e tapete mofado tão característica das obras-primas do nosso gênio maior. E tem Brasília, onde Niemeyer anteviu que a humanidade iria se voltar para a vida bucólica e natural do transporte em automóvel, abandonando o artificialismo mecânico das caminhadas a pé. Ah, Brasília, com suas subdivisões de pesadelo real-socialista – você sai do Setor de Anãs Chupadoras de Dedão com Micose 13 para o Setor de Diversões dos Escriturários do Legislativo 27, tudo naquele estilo ‘prédio chinfrim e dilapidado com 350 salas por andar’. Em outras palavras, a visão distópica do que deveria ser a vida social dos humanos no paraíso funcionalista do socialismo real, que alimentou tantos sonhos revolucionários do século XX. E tem as proporções ridiculamente inadequadas das construções, com secretárias de ministérios espremidas em mesinhas no corredor, o que me remete à cena de 'uma mesa para duas salas' de Brazil, the film. E tem também as bundonas irregulares, mas absolutamente necessárias, dos restaurantes da moda, peidando gordura para dentro da área de lazer das super-quadras, já que as cozinhas não cabem na faixinha estreita e desenxabida onde os planejadores alocaram os sub-itens alimentação fora de casa e diversão noturna. Segundo seus amigos, o Niemeyer teria uma faceta simpática: a de putanheiro divertido e generoso. Uma vez ele disse que o Portinari era chato porque não gostava de sair à caça com a tchurma na naite. Um cara que diz que o Portinari é chato tem lá o seu valor



Domingo, Dezembro 18, 2005

Jurassic Park

No Brasil, morto não tem defeito. O sujeito morre ao meio-dia e às seis da tarde é canonizado. Em algumas ocasiões, esse processo é ainda mais rápido. Veja o caso de Oscar Niemeyer. As reportagens sobre seu 2.000.º aniversário mostram que ele já foi alçado à condição de semideus, embora, ao que tudo indica, continue vivo. Os jornais informaram que ele ainda trabalha todos os dias (mesmo tendo nascido no Cenozóico), e não pouparam elogios a sua “genialidade”. O mais divertido é que os textos não lembraram em nenhuma oportunidade que um dos maiores culpados por Brasília é fã de carteirinha de Stálin. Como já virou santo, Niemeyer só tem qualidades. A Folha o entrevistou, mas a repórter não fez nenhuma pergunta sobre o tema (para que deixar o vovô contrariado?) E Niemeyer não é um stalinista envergonhado. Não, ele faz questão de alardear sua coerência política.
No ano passado, em artigo para a Folha, ele atacou Kruschev, porque, “ambicioso, voltado para o poder, elaborou o lamentável relatório contra Stálin”.
O mais emocionante é que há quem goste de suas posições políticas. Cony escreveu em agosto que “ficou difícil encontrar um comunista por nossas bandas, com exceção (aliás honrosa e comovente) do Oscar Niemeyer, que é homem de caráter e coragem”. O que há de honroso e comovente em idolatrar um genocida? Eu vejo um exemplo de caráter e coragem parecido apenas no apoio dado em 1945 por Luiz Carlos Prestes a Vargas, que havia deportado Olga Benário (mulher de Prestes) para a Alemanha nazista nos anos 30



Quinta-feira, Dezembro 15, 2005

A volta dos bigodudos IV

Antes do surgimento de Ahmadinejad e suas declarações debilóides, eu achava que o pior que o Irã podia fazer ao Ocidente era aterrorizar o mundo com os filmes-bomba do Abbas Kiarostami. O diretor iraniano tem a capacidade invejável de transformar em longas roteiros que dariam ótimos – vá lá – candidatos ao Festival do Minuto. Mas a canalhice de Ahmadinejad mostrou que os iranianos podem ser muito mais perigosos do que os insuportáveis filmes do Kiarostami

PS: Eu não quis atingir a imagem dos porteiros com o post anterior, mas vou entender se eles ficarem ofendidos pela comparação com um maníaco como o presidente do Irã



A volta dos bigodudos III

Não gostei do seu comentário. Achei preconceituoso. Nossos porteiros, mesmo os que não anotam recados, são tipos pacíficos e razoavelmente esclarecidos, nada tendo da cara de fanático mentiroso do Ahmadinejad



A volta dos bigodudos II

A escalada de declarações anti-semitas do lunático presidente do Irã é um bom teste para ver a reação de intelectuais e políticos de esquerda. Eu gostaria que eles protestassem contra Ahmadinejad com um décimo da indignação que mostram a cada discurso da besta do Bush. Estranhamente, regimes totalitários, teocráticos e assassinos, que não respeitam os direitos das mulheres e não admitem oposição, recebem um tratamento camarada de parte da intelligentsia ocidental, em nome de um relativismo cultural que muitas vezes vê no homem-bomba apenas “uma vítima da opressão do mundo globalizado”. Para eles, o fato de uma parte não desprezível – atenção, eu não disse a maioria - do mundo muçulmano ansiar pela destruição dos países e valores ocidentais é apenas um detalhe.
Quando vejo declarações como as de Ahmadinejad, eu me lembro da frase de meu pai sobre os muçulmanos em geral: “Não se pode respeitar um povo que reza com o traseiro para cima” (na versão original, meu pai, educado na Suíça, usou um termo mais cru do que traseiro). E, dado o nível de barbaridades expelidas pelo presidente do Irã, sou levado a pensar que meu velho não estava totalmente errado. Aproveitando a mesma linha sofisticada de argumentação: Ahmadinejad não tem cara de porteiro, e aquele tipo de porteiro que não consegue anotar recado de modo nenhum?



A volta dos bigodudos

O Bush é um merda, mas quando a gente vê o nível de barbaridades que os anti-bushistas dizem, dá até para entender o porquê do sucesso do Bush. Vejam o caso do presidente iraniano, o neo-nazista Mahmoud Ahmadinejad, negando a existência do Holocausto (intelectuais, por favor, barulho, barulho!). E vejam também o bando de merdas que o nosso único concretador de renome mundial, Oscar 'Stalin is cool' Niemeyer, despejou no seu artigo na Folha: "A revolução de 1905, de outubro de 1917, a vitória contra o nazismo, a libertação de Cuba, tudo isso vai se repetir depois destes tempos sombrios que o capitalismo brutalmente instituiu e o império de Bush procura manter". A ubiqüidade ideológica da debilidade mental não cansa de me surpreender



Terça-feira, Dezembro 13, 2005

Nova cara, mas o corpinho é o nosso mesmo

Como qualquer leitor não cego pode perceber, nós mudamos o template do Torre de Marfim, quer dizer, a Cris França, do Feira Livre, mudou. O conteúdo, porém, vai continuar o mesmo, alternando temas sofisticados, como a filosofia de Anacleto de Avignon, e assuntos mais populares, como a Sala Especial. E nós aproveitamos esta interrupção nas nossas discussões para deixar claro que são exagerados os boatos de que o autor do Torre de Marfim seria o Alex Castro. Ele fez uma ironia no Liberal Libertário Libertino a esse respeito, mas parece que nem todo mundo entendeu. Os responsáveis pelos posts que você lê aqui somos eu e o F. Arranhaponte, para o bem e para o mal. Nós agradecemos a publicidade gratuita do Alex, mas fazemos questão de que os aplausos e vaias ao Torre de Marfim recaiam sobre nossas cabeças, e não sobre a de outros metidos a engraçadinhos. Abraços a todos



Segunda-feira, Dezembro 12, 2005

Os embalos de sexta-feira à noite

Neste post, Uncle Filthy falou das grandes estrelas da pornochanchada nacional, mostrando um gosto refinado ao escolher Aldine Muller como a musa desse período tão rico do cinema brasileiro. Eu confesso que o texto me emocionou: lembrei dos meus tempos como assíduo espectador da Sala Especial. Todas as sextas-feiras, às 11 horas da noite, a Record nos brindava com os filmes brasileiros que realmente fizeram história. O que é Terra em transe perto de clássicos como A super fêmea, A árvore dos sexos e Elas são do baralho?
Quem tem livre acesso à pornografia na Internet ou vê programas como o Sexytime, do Multishow, não tem idéia da importância da Sala Especial para o jovem punheteiro do fim dos anos 70 e começo dos anos 80. E a verdade é que nem tudo era fácil para os seguidores de Onan naquela época. Tudo começava pela qualidade do sinal da Record, que era horrível, pelo menos no meu bairro. Na minha casa não havia antena externa e, por mais pedaços de bombril que meu pai colocasse na interna, a imagem era sempre tomada por chuviscos e sombras.
Outro problema: nós tínhamos apenas uma televisão, que ficava na sala. Meus pais sempre dormiram cedo, mas abriam algumas exceções, por coincidência nos dias em que eu queria ver Sala Especial. Havia um momento, porém, em que eles capitulavam. A sala, enfim, era minha. Eu girava silenciosamente o seletor de canais – sim, não havia controle remoto -, colocava na Record, baixava o som, dava uma mexida bem caprichada nos bombris e pronto: a Sala Especial estava no ar!
Eu poderia inventar um passado de filmes cheio de erotismo e luxúria, mas prefiro a verdade: eu dava um azar dos infernos com os filmes! Na maior parte das vezes, os que vi eram péssimos, e o conceito de péssimo aqui significa pouca ou nenhuma nudez feminina. O IMP – índice de mulher pelada – por filme era baixíssimo. A falta de controle remoto me deixava em estado de tensão permanente: a qualquer ruído que pudesse significar aproximação dos meus pais, eu era obrigado a dar um bico no seletor, para mudar de canal. Mas, dado o baixo IMP, o meu maior drama era sincronizar o clímax com a aparição dos peitos da Nádia Lippi, por exemplo, e evitar a todo custo que ele ocorresse quando a bunda do David Cardoso estivesse na tela. Vejam vocês o que é a falta de opção: terminado o filme, eu não tinha dúvidas de qual seria o programa da próxima sexta-feira: assistir a Sala Especial, torcendo para que o filme da semana seguinte trouxesse mais peitos de mulher do que bunda de homem



Quarta-feira, Dezembro 07, 2005

Anacleto, entre o apolíneo e o dionisíaco IV

É, o Anacleto tem este incrível ecletismo, este percurso que perpassa toda a gama da experiência humana. Você sabia que também há suspeitas de que o aforismo CLXXXVIII tenha sido glosado de Arnaut Daniel, o trovador provençal do século XIII? Mas eu tenho minhas dúvidas. Se fosse verdade, o pobre aforisminho não teria escapado de virar poema concreto pelas mãos pesadas e peludas dos irmãos Campos . De qualquer forma, o dito chegou aos nossos tempos, numa versão distorcida e algo grosseira. Eu a colhi em uma birosca na zona portuária de Buenos Aires, em noite regada a carne e vinho vagabundo, que terminaria em briga e navalhadas. Traduzida diretamente do lunfardo (ok, não é um idioma, mas tente entender), a versão moderna do aforismo CLXXXVIII fica mais ou menos assim: "Existem três tipos de mulher. As putas, que dão pra todo mundo. As filhas da puta, que dão pra todo mundo menos pra gente. E as chatas, que só dão pra gente". Sei lá, ainda acho que o Anacleto deu uma forma mais elegante a esta verdade eterna



Anacleto, entre o apolíneo e o dionisíaco III

A verdade é que a obra de Anacleto é muito complexa e intrincada. Mesmo assim, decidi divulgá-la para um público mais amplo, o que me valeu reprimendas de anacletianos mais ortodoxos. Fiquei escandalizado justamente ao descobrir que nem no Google é possível encontrar alguma coisa sobre o filósofo de Avignon. E foi oportuna a sua menção ao aforismo CLXXXVIII, que mostra a faceta mundana de Anacleto. Ao que tudo indica, ele teve uma fase bastante desregrada em sua vida, antes de atingir o equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco. O aforismo LXIX, por exemplo, é considerado apócrifo por alguns anacletistas, dado o seu elevado grau de erotismo: “Feliz do homem que saboreia o néctar íntimo feminino, porque se aproxima do que de mais divino há na Terra”. Apócrifo ou não, o aforismo é talvez o mais verdadeiro dos que foram (ou não) escritos por Anacleto



Anacleto, entre o apolíneo e o dionisíaco II

Caro Matamoros, como você nunca me emprestou seus livros do Anacleto, e como Google, Yahoo e MSN furtam-se a nos trazer quaisquer informações sobre o gênio de Avignon, que parece ser objeto de conhecimento e culto apenas em círculos estreitos e fervorosamente fechados – cujo acesso sempre me foi vedado – de amantes da verdade última salpicados em diferentes partes do globo, restou-me confiar na transmissão indireta por você mesmo do legado deste pensador inigualável. De tudo o que você vem me ministrando – com certa usura, ouso dizer – do anacletismo ao longo dos anos, confesso que nada me impressionou tanto quanto o famoso (para os iniciados) aforismo CLXXXVIII sobre as mulheres: “As damas dividem-se em três grupos. As pecadoras, que deitam-se com todos. As pecadoras mortais, que deitam-se com todos, menos conosco. E as virtuosas, que só se deitam conosco, e nos enfadam”. Acho que esta incisiva pérola do mestre de Avignon, que data da sua turbulenta fase intermediária – quando a fé exaltada da primeira juventude já desvanecera, mas o sereno pensamento da maturidade ainda não despontara – antecipa em grande parte a angst afetivo-sexual que viria a permear nossa cultura na modernidade



Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Anacleto, entre o apolíneo e o dionisíaco

Num post abaixo, citei o grande filósofo Anacleto de Avignon. Achei que ninguém se interessaria por ele, mas qual não foi minha surpresa quando alguns leitores - sim, eles existem - e amigos perguntaram sobre o injustiçado Anacleto. Pouco se sabe sobre sua vida, ao que parece transcorrida inteiramente em Avignon, entre 1573 e 1653. Católico fervoroso na juventude, funcionário público medíocre, Anacleto teve o estilo límpido elogiado até pelo anticlerical Voltaire. Seus aforismos lhe valeram a alcunha de La Rochefoucauld católico. A obra anacletiana se resume a apenas dois livros. O primeiro, “Reflexões de um jovem católico”, tem como aforismo mais importante o estóico “Privar-se dos prazeres é o maior dos prazeres”. Em seu outro livro, “Aforismos da maturidade”, os traços religiosos continuam presentes, mas sem o proselitismo exagerado do primeiro, como nota Otto Maria Carpeaux no pouco conhecido ensaio “Anacleto e a busca do equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco”. Bakhtin é outro que dedicou algumas páginas a Anacleto, no seu livro “Problemas na poética de Dostoievski”. Para ele, o filósofo de Avignon antecipou o “Se Deus não existe, tudo é permitido”, que aparece em “Irmãos Karamazov”, ao escrever, no século 17, que “um mundo sem Deus é inconcebível, pois uma existência sem nenhum limite é insuportável até para o mais convicto dos incréus". Por que um gênio como Anacleto está quase esquecido? A resposta parece estar no ensaio de Carpeaux: quem tenta conciliar opostos aparentemente irreconciliáveis como o apolíneo e o dionisíaco não tem espaço num mundo que busca certezas cada vez mais absolutas como o atual

PS: Os livros de Anacleto nunca foram publicados no Brasil. Eu tenho dois exemplares editados em Portugal, no começo do século 20. Não vendo e não empresto de jeito nenhum



Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

Histórias de vida II

Acho que o Seu Jorge deve se radicar em Paris, como bon sauvage profissional. Quando a fórmula se esgotar, ele se converte ao islamismo e vira um rapper de sucesso na banlieue em chamas. E o ciclo estará completo. Quanto ao Lula, outro dia no seu programa de rádio ele disse que, graças ao Bolsa Família, famílias como a dele não estão mais migrando para São Paulo. E depois dizem que o Guia Genial não faz auto-crítica. História de vida bonita é a da Athina Onassis, que enfrentando o despeito e a maledicência da gentalha realizou o casamento dos seus sonhos



Histórias de vida

Eu não suporto pessoas com história de vida. Quem veio de baixo e conquistou tudo com o próprio esforço exala uma superioridade moral intolerável. Lula é o caso mais óbvio. Como passou fome e veio para São Paulo num pau-de-arara, acredita fanaticamente que ninguém pode falar com mais propriedade do que ele sobre fome e sobre como acabar com a pobreza. Sua história pessoal pode ser considerada comovente, mas o uso que faz dela me deixa enojado. Para o Guia Genial, o que um sujeito que passou a vida estudando pode saber mais sobre o assunto do que ele, que na infância muitas vezes não tinha o que comer?
O mais novo queridinho da mídia que tem história de vida é Seu Jorge. Como foi morador de rua e hoje é cantor e ator de sucesso, virou celebridade. Há algumas semanas, foi o entrevistado do Roda Viva. Eu não vi e não gostei. É verdade que Seu Jorge não tem a mesma empáfia de Lula, e até onde eu sei não usa o fato de ter sido morador de rua como argumento definitivo para encerrar discussões. De qualquer modo, sua história de vida sem dúvida é fundamental para explicar a fascinação que ele provoca na imprensa. Se o Seu Jorge é bom cantor – eu acho que não é -, se é bom ator – eu tenho certeza que não é -, isso não interessa. Há alguns meses, quando ele se apresentou em São Paulo, eu vi várias pessoas empolgadas com a idéia de ir ao show de Seu Jorge não porque conheciam suas músicas, mas porque veriam de perto um sujeito que foi morador de rua e deu a volta por cima. Era um estado de espírito parecido com o de quem vai ao zoológico, e não de quem vai a um show de música



Quinta-feira, Dezembro 01, 2005

Para onde vai o quarto poder? VI

Quer dizer que Rui Barbosa era um desmancha-rodinhas? Eu não conhecia essa faceta do ilustre baiano. Confesso que sei pouco sobre ele. Quando eu era pequeno, Rui Barbosa era vendido pelas professoras como um dos grandes brasileiros de todos os tempos – o que não é grande coisa, já que a concorrência é fraca. Mas, aos poucos, essa imagem foi se desfazendo. Descobri ainda no colegial – para nossos leitores teens, o equivalente ao ensino médio atual -, que ele não foi um ministro da Fazenda dos mais brilhantes, embora tenha a honra de ter provocado a primeira crise inflacionária da República, com a política do Encilhamento. Eu ia criticá-lo por ter mandado queimar os arquivos sobre a escravidão, mas achei este artigo dizendo que a história é besteira. Como está no site da Casa Rui Barbosa, o texto não parece ter isenção suficiente para tratar da questão, mas a verdade é que, como sofro de caymmite, estou com preguiça de pesquisar a fundo para ver quem está certo.
Nas minhas andanças pela internet, eu me deparei com uma frase do próprio Rui Barbosa que talvez tenha um cunho autobiográfico maior do que ele mesmo gostaria de admitir: “O escritor curto em idéias e fatos será, naturalmente, um autor de idéias curtas, assim como de um sujeito de escasso miolo na cachola, de uma cabeça de coco velado, não se poderá esperar senão breves análises e chochas tolices." (Rui Barbosa – A Imprensa e o Dever da Verdade, 9)



Para onde vai o quarto poder? V

O Caetano disse que o Brasil vai dar certo "porque eu quero". É interessante, mas ele poderia trabalhar melhor esta linha de argumentação, como fazem, por exemplo, minhas filhas de sete anos ("você vai me dar a boneca que faz xixi porque eu quero e porque todas as minhas amigas têm"). Eu acho que as raízes da verborragia baiana são mais profundas, e incluem Rui Barbosa, o "mala de Haia", como fica claro num livro de um diplomata americano sobre a famosa conferência, no qual está escrito com todas as letras que o nosso grande tribuno era considerado um chato épico, de cujos discursos os demais participantes fugiam como o diabo da cruz (vou ver se acho um link disto). E, é claro, do ponto de vista não da quantidade, mas da qualidade do matraqueado, Rui notabilizou-se pelo combate a Oswaldo Cruz e às campanhas de vacinação contra a febre amarela. Assim, fica evidente que Gil e Caetano vêm de uma linhagem psitacista de grande valor. E não esqueçamos do Mangabeira Unger, de ilustre família baiana (não sei se nasceu ele mesmo na terra boa, acho que não), e que é o DJ do momento na cena non-sense non-stop das baladas políticas. Bem, antes que a Marcela reclame, todos estes baianos são inteligentíssimos, QI de Daniel Dantas para cima, mas nunca deram ouvidos à máxima wittgensteiniana: "Sobre aquilo de que não se deve falar, deve-se calar"



Para onde vai o quarto poder? IV

Há realmente um excesso de opinião no mundo. É só ligar a televisão e ver quantos programas consistem em juntar pessoas discutindo com empenho temas sobre os quais não têm o menor conhecimento, todos mais ou menos filhos bastardos do Manhattan Connection. O que me espanta - e me diverte algumas vezes - é que as pessoas se levam a sério demais. Não é difícil ver o ex-big brother no programa da Luciana Gimenez dando sua opinião sobre o referendo da venda de armas, com a convicção de que tem algo de importante a dizer. Mas em termos de opinionismo sem base, ninguém supera os dois expoentes do pensamento baiano tropicalista. Caetano Veloso e Gilberto Gil sempre estarão dispostos a responder tudo o que lhes for perguntado, do programa nuclear brasileiro à política monetária ortodoxa do Banco Central. Caetano, por exemplo, não se avexa em interpretar o Brasil, como se fosse um Sérgio Buarque do Recôncavo. E Gil fez um disco - Quanta - em que aproveita para inserir conceitos de física quântica nas músicas. É demais de bonito tanto conhecimento e humildade andando de mãos dadas, meu rei



Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


Links

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