Terça-feira, Dezembro 20, 2005

Jurassic Park II

"What was intended at the time to showcase a spirit of rationalism and modernity now showcases 1950s kitsch"
("O que foi concebido na época como um exemplo do espírito de racionalismo e modernidade hoje é um exemplo de kitsch dos anos 50 ")
The Economist, 18/12/1997, referindo-se à Brasília, em uma reportagem sobre capitais planejadas

É, tem este negócio dos caras liberados para falar merda: eu diria que o Niemeyer e o Lula são expoentes da categoria, se bem que, agora que seu governo se esboroou, o Guia Genial anda mais patrulhado. O Niemeyer, por outro lado, tem a arquitetura maravilhosa, aquela concretada kitsch, sem nenhuma relação com o ambiente natural, dentro da qual o nosso peito estufa de orgulho e nossas narinas aspiram a atmosfera de ar condicionado e tapete mofado tão característica das obras-primas do nosso gênio maior. E tem Brasília, onde Niemeyer anteviu que a humanidade iria se voltar para a vida bucólica e natural do transporte em automóvel, abandonando o artificialismo mecânico das caminhadas a pé. Ah, Brasília, com suas subdivisões de pesadelo real-socialista – você sai do Setor de Anãs Chupadoras de Dedão com Micose 13 para o Setor de Diversões dos Escriturários do Legislativo 27, tudo naquele estilo ‘prédio chinfrim e dilapidado com 350 salas por andar’. Em outras palavras, a visão distópica do que deveria ser a vida social dos humanos no paraíso funcionalista do socialismo real, que alimentou tantos sonhos revolucionários do século XX. E tem as proporções ridiculamente inadequadas das construções, com secretárias de ministérios espremidas em mesinhas no corredor, o que me remete à cena de 'uma mesa para duas salas' de Brazil, the film. E tem também as bundonas irregulares, mas absolutamente necessárias, dos restaurantes da moda, peidando gordura para dentro da área de lazer das super-quadras, já que as cozinhas não cabem na faixinha estreita e desenxabida onde os planejadores alocaram os sub-itens alimentação fora de casa e diversão noturna. Segundo seus amigos, o Niemeyer teria uma faceta simpática: a de putanheiro divertido e generoso. Uma vez ele disse que o Portinari era chato porque não gostava de sair à caça com a tchurma na naite. Um cara que diz que o Portinari é chato tem lá o seu valor



3 Comments:

  • E a luxúria da língua que ora nos engole, no Ibirapoeria? Quer coisa mais vermelha que aquilo? Mas perdoemos o Niet-Mayer: é atraente o comunismo, quando se é bem rico e pago pelo Estado.

    By Blogger Mauro, at 7:22 PM  


  • Mauro,
    O Niemeyer mostra que, no Brasil, ser de esquerda é a opção mais inteligente do ponto de vista financeiro. Por isso, eu já decidi. Meu filho vai ser de esquerda, custe o que custar. Os neoliberais temos uma vida monástica que não quero para minha prole
    Um abraço,
    Marcos

    By Blogger Marcos Matamoros, at 11:57 AM  


  • Eu vivi em Brasília a vida toda[1], e discordo de um ponto: o endereçamento aqui é muito legalzinho :) De resto, tudo certo: os prédios discretos são feios, os chamativos são cafonas. Eu sempre achei que o Banco Central é o prédio mais bonito de Brasília - se foi Niemeyer que fez (vou lá eu saber disto?), por algo (além do endereçamento) merece parabéns. Dizem que a Terceira Ponte do lago também é dele, e de fato é muito bonita[2]. Se não for, porém, é vergonhoso ver que até a anta do governador Roriz contrata arquitetos melhor que JK.

    Mas é sério, Brasília é um ótimo lugar para se viver. Está começando a ficar com problemas de engarrafamento, mas acho que 15 min são pouco perto de outras cidades. Claro que, para resolver isto, estão chamando Niemeyer. Ele provavelmente vai fazer alguns rabiscos, dizer que é o desenho de uma biblioteca e é isto aí.

    Aliás, o Niemeyer estará vivo mesmo? Poderíamos plantar a semente da desconfiança e cria a nova teoria da Conspiração: "Niemeyer morreu em 1876". João Paulo I que se cuide - se bem que eu acho que mataram ele mesmo...

    Agora, senhores, vou almoçar no "bandejão" da Universidade de Brasília. Aliás se me permitem um parêntese, eis aí a obra magna de Niemeyer: as entradas do prédio principal ficam de frente a uma inclinação, de modo a pegar toda a lama que a chuva mandar. Aliás, o prédio principal tem 700 m de comprimento, prova da genialidade de Niemeyer, que lembrou que alunos precisam de bastante exercício. Uma vez trouxe minha namorada aqui e ele ficou com muito medo. Mesmo. Pelo menos os jardins internos são mui belos, os externos também, a biblioteca é legal, a comida do RU (i.e. bandejão) é comível, os professores são bons e os alunos de sociologia e ciência política são, em sua maioria, de direita.

    [1] Minto: vivi no Distrito Federal a vida toda, mas para isto não faz diferença.
    [2] A Terceira Ponte do Lago Paranoá é um dos maiores orgulhos de Brasília: é bonita, forte e reduziu o tempo que os aspones levavam para sair do Lago Sul e chegar no Plano Piloto de 30 min para 20 min. É bom ver que o dinheiro da educação e da saúde estão bem investidos.

    By Anonymous Adam Brandizzi, at 12:55 PM  


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