Domingo, Outubro 09, 2005

Zuenirismo e seus descontentes

Zuenir Ventura e Luiz Fernando Veríssimo caminham pelos paralelepípedos desalinhados de Parati, braços dados. Quanta bonomia... mas também consideração, o olhar humanista, o cenho levemente franzido pelo ‘sentimento do mundo’, por pensar em tudo o que há de tão errado por aí. Ahhh, o mundo poderia ser tão maravilhoso se todos fossem tão legais e íntegros quanto o Zuenir e o Veríssimo. "Cara, é um puta caráter, uma pessoa maravilhosa". Dias depois, eles comentarão em suas crônicas o passeio de braços dados à sombra do casario colonial: o que será que pensaram da gente, ho ho ho? Quanto humor, quanto lirismo. Ho ho ho, mal me agüento de tanto rir.
Veríssimo é tão inteligente que está acima do zuenirismo (calma, definições e detalhes à frente), mas adora ser paparicado pelos zueniristas: é meio como o expedicionário ocidental perdido na selva que foi dar numa tribo nativa e acabou chefe e sumo sacerdote. Zuenir, como não poderia deixar de ser, é uma importante (mas não a única) matriz do zuenirismo, aquela doce forma de ser de esquerda na zona Sul do Rio, com apoio das Organizações Globo ("estes são os meus comunistas" – Roberto Marinho), um jeito muito humano, geeente, de ser, mas também a gravidade necessária para enfrentar os poderosos e denunciar os males do mundo: a violência, o Bush, o Maluf, a destruição do meio-ambiente, o neoliberalismo egoísta, o Lula de agora, enfim, aquelas coisas todas que ninguém tem coragem de atacar.
Por favor, não me interpretem mal. Não tenho nada contra a esquerda festiva, isto é, as pessoas de esquerda ricas ou que têm o suficiente para viver muito bem. Pelo contrário, estas são as melhores e mais generosas, na maioria das vezes – o senador Suplicy e Gore Vidal estão no meu panteão particular, evidentemente não pela capacidade de compreender o mundo, mas quem se importa com isso? Conceitualizar o zuenirismo nada tem a ver com cobranças mesquinhas daquele tipo, porque o que define o zuenirismo não é a conta bancária, mas um estado de espírito.
Ser zuenirista é ser óbvio (e por isto Veríssimo não é zuenirista), é colocar camiseta branca para pedir pazzzzz em passeatas pelas ruas limpas e bem cuidadas da Zona Sul quando os 40 presuntos semanais do tráfico ou da polícia no Rio concentram-se em um ou dois dias e a imprensa evoca a palavra ‘chacina’. É não só votar 'sim' no referendo sobre a proibição do comércio de armas (eu mesmo devo votar sim), mas proclamar que este é um ponto muito importante para que a pazzzz estabeleça-se na sociedade partida. É não só não gostar do Bush (eu não gosto), mas não gostar todos os dias, como as orações que fazíamos antes de dormir. É ser contra todas as invasões americanas: Iraque II (como eu), Afeganistão, Iraque I, Sérvia, aquela ilhota no Caribe, a prisão do Noriega ... se a gente for caminhando para trás acaba na Normandia. É adorar o Niemeyer não só como arquiteto, mas como gente, como ser humano. É ser docemente elíptico quanto à insistente defesa, por ‘um dos maiores arquitetos de todos os tempos’, de Stalin. Afinal, o Niemeyer é tão generoso, nem sabe cuidar do seu próprio dinheiro.
Ser zuenirista é fingir que ser rico é uma coisa de mau-gosto, mas perdoável se você nem sabe cuidar do seu próprio dinheiro. Ser zuenirista é freqüentar como convidado vip todos os eventos culturais cult, da festa literária de Parati às bocas livres que ACM promove em Salvador de tempos em tempos. É conseguir a proeza de escrever uma crônica sobre a maravilhosa estadia em Salvador durante a última boca-livre do Malvadeza, com um texto que ao mesmo tempo livra a sua cara da acusação de ter sido cooptado pela direita e garante o convite para o próximo jábá do ACM. “É inegável que a cidade ficou muito mais bonita com as reformas do ACM, seja qual for a sua visão política - meu caro leitor - sobre o senador; aliás, fique tranqüilo, uma coisa nada tem a ver com a outra”. Ser zuenirista é esperar que o consenso zuenirista coalesça antes de escrever aquela importante crônica na qual, corajosamente, Zuenir (ou qualquer outro) rompeu com o lulismo. É tratar com um misto de silêncios, evasões, evocações de antigos laços e discretas alfinetadas aquelas ovelhas negras intelectuais que se insurgem raivosa e reativamente contra o zuenirismo, como Francis e os seus descendentes. “Não pega bem bater de frente”. Ser zuenirista é lidar magistralmente com a omissão e com formas quase imperceptíveis de censura (não no sentido legal do termo) quando se trata de assuntos incômodos. Aquele intelectual da turma que disse que vai votar ‘não’ no referendo? Para que questionar diretamente, se um tsk tsk apenas pensado e mudamente ronronado pelas cordas vocais já faz o serviço? Body language, meu caro. Ser zuenirista é conseguir concordar, nas mesmas 24 horas, com o que escreveram o Diogo Mainardi e o Emir Sader – mas só se a correlação de forças do momento (os componentes da mesa da Cobal do Leblon, por exemplo) assim o impôs. Ser zuenirista é amar a camaradagem das pessoas bonitas, elegantes e sinceras (para o gosto zuenirista), e detestar o dissenso arrivista e perturbador dos provocadores. Ser zuenirista é tentar cooptar todos os provocadores talentosos para o zuenirismo, em troca de acesso a este mundo ma-ra-vi-lho-so povoado pelo Chico Buarque, a garota de Ipanema, um banquinho e um violão, o camarote da Brahma, Zeca Pagodinho, a comissão de frente da Mangueira, as Organizações Globo, a Regina Casé, uma estréia de ópera no Municipal (com o Lulu Santos de smoking verde abacate circulando pelos corredores), etc. Ser zuenirista é zelar por este portentoso edifício ideológico que nos permite lutar por um mundo melhor, sem correr riscos nem perder as boquinhas.



1 Comments:

  • "Ser zuenirista é lidar magistralmente com a omissão e com formas quase imperceptíveis de censura (não no sentido legal do termo) quando se trata de assuntos incômodos".
    "Ser zuenirista é zelar por este portentoso edifício ideológico que nos permite lutar por um mundo melhor, sem correr riscos nem perder as boquinhas."

    Perfeito. Aliás, o texto inteiro é excelente. O que me causa certa preocupação é que a aparente anodinia do zuenirismo na verdade esconde algo perigoso, uma censura velada. Quem já teve a oportunidade de tentar expor suas opiniões entre zueniristas sabe do que estou falando. O pior é que esse mal acomete uma grande parte de minhas amizades. Mas cabe a nós, provocadores, não baixar a guarda, denunciar a farsa. Parabéns, com esse texto a Torre entra na lista dos preferidos do Big Head. Let's keep on fighting the good fight...

    By Anonymous Kbção, at 12:30 AM  


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