Previsões III
Eu visualizo a cena. O Krugman na banheira, inverno no hemisfério Norte, acompanhando a Bloomberg no terminal instalado no banheiro, quando de repente as notícias começam a surgir: a bolha imobiliária estourou, e os preços das casas despencam entre 30% e 50% em apenas um dia (não me pergunte se isto pode de fato acontecer - não entendo nada de mercado imobiliário); proprietários desesperados ateiam fogo às suas residências na calada da noite para ver se ao menos conseguem uma indenização do seguro; o Índice Dow Jones despenca 13% e o pânico toma conta de Wall Street; já há registros de suicídios (um corretor espatifou-se na calçada num dos pontos mais nobres de Manhattan, esguichando sangue nas lentes de turistas chineses horrorizados); by the way, a turbulência atingiu a China, onde a inflação dispara e o BC decretou feriado bancário, para estancar uma corrida bancária (como efeito demonstração, três velhinhas que insistiam em retirar sua poupança na província de Xoxotang, no extremo noroeste, foram fuziladas no ato); no Oriente Médio, homens bombas espocam por toda a parte (não há relação aparente entre a crise econômica global e qualquer passagem do Corão, mas tudo é motivo para homem bomba explodir); no Leste asiático, as bolsas despencam e a Coréia do Sul entra em alerta nuclear máximo (os norte-coreanos aproveitam o caos mundial para anunciar seu projeto de reunificação da província sob a égide do neo-maoísmo); na África, as perspectivas, habitualmente negras, ficam ainda mais pretas; o mundo, enfim, sucumbe à crise. Excitadíssimo, Krugman corre nu para a sala, respingando água no carpete, a espuma do xampu escorrendo pela barba, aos berros de "I told you, I told you', como se falasse com o resto da humanidade como um todo. Ele ri, chora, dá cambalhotas, aparece na janela e sacode o peru para a adolescente vizinha que sai para a escola. A esposa, aturdida, corre para o telefone, disca o número de emergências psiquiátricas, enquanto a situação continua a se deteriorar, acompanhando o cenário global. No minuto subseqüente, Krugman já está do lado de fora, pequenos flocos de neve caindo sobre o corpo curvo, branco e repulsivo de intelectual, os olhos arregalados, gargalhando demoniacamente enquanto agarra um discreto senhor pela gravata e o esbofeteia. Os vizinhos incrédulos vêem a ambulância chegar e o candidato a Nobel ser arrastado embora numa camisa-de-força. No dia seguinte, enquanto devoram o noticiário sobre o grande colapso do capitalismo global, poucos leitores do New York Times percebem a notinha informando que "por razões estritamente pessoais, o economista Paul Krugman já não colabora com este jornal".



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