O choro dos corruptos
F. ARRANHAPONTE: A prova definitiva de culpa de um suposto corrupto, para mim, é o ato de chorar na CPI (ou na comissão de ética, ou em qualquer um dos múltiplos fóruns de investigação por aí). A razão é simples. O sujeito honesto tem pudor, circunspecção, reticência. Ele pode até ficar com nó na garganta, ter um princípio de descontrole lacrimal, mas rapidamente, num condicionamento repressivo do tipo que nos impede de mijar nas calças propositadamente se estivermos de fraque como padrinho numa cerimônia de casamento, ele se restabelece, e volta a se comportar como um homem (ou mulher) adulto. Chorar em público deslavadamente, feito um bebê com a fralda cagada, é ato típico dos sem-vergonha, como este cozinheiro italiano, o Buani, que conseguiu defenestrar o Severino. Foi bom derrubar o Severino, mas este Buani... Você compraria um restaurante usado dele? Ouvi dizer, ou li por aí, que o Valdemar Costa Neto, um sujeito nietzschiano, muito aquém do bem e do mal, teria dito para alguém que depor em CPI é mole, é chorar, chorar, chorar, que a opinião pública fica com peninha e pega leve. Bem, 1/182 milhões avos da opinião pública, isto é, eu, tem opinião diametralmente oposta. Chorar em CPI, para mim, é crime capital. Eu até fico revendo mentalmente alguns dos depoimentos que assisti, e simpatizo retrospectivamente com alguns dos corruptos que não choraram. Confesso. Por exempo, tenho a impressão que Marcos Valério não chorou (posso estar errado). Quando penso nisso, me vem a idéia de que ele demonstrou um mínimo de dignidade na desgraça. Delúbio e Silvinho choraram (não necessariamente na CPI). Forca com eles. Sei que estas reflexões não serão populares, mas estou sendo sincero. Para ser curto e grosso, deixo aqui registrado o clamor de 1/182 milhões avos da opinião pública: "Morte horrenda aos corruptos chorões!"
MARCOS MATAMOROS: O choro dos corruptos causa em mim mais perplexidade do que indignação, embora eu também tenha ânsia ao ver figuras repulsivas chorando em público. O corrupto brasileiro, como muitos já notaram, nunca se mata. Nos últimos escândalos, não lembro de nenhum corrupto que tenha se suicidado. Confesso que não sei se o suicídio é melhor que o choro, mas revela algum resquício de fibra moral. Dar um tiro no coco requer pelo menos um pouco de coragem, não? Será que isso significa que o brasileiro, ou pelo menos o corrupto brasileiro, é mais pusilânime do que o japonês, ou pelo menos do que o corrupto japonês? Ou será que, ao chorar, o corrupto espera de alguma maneira se mostrar humano e conquistar a simpatia dos possíveis algozes?
F. ARRANHAPONTE: Um corrupto se suicidar seria um imenso avanço institucional. Mas não creio que eu viva para ver isto no Brasil.
MARCOS MATAMOROS: O choro dos corruptos causa em mim mais perplexidade do que indignação, embora eu também tenha ânsia ao ver figuras repulsivas chorando em público. O corrupto brasileiro, como muitos já notaram, nunca se mata. Nos últimos escândalos, não lembro de nenhum corrupto que tenha se suicidado. Confesso que não sei se o suicídio é melhor que o choro, mas revela algum resquício de fibra moral. Dar um tiro no coco requer pelo menos um pouco de coragem, não? Será que isso significa que o brasileiro, ou pelo menos o corrupto brasileiro, é mais pusilânime do que o japonês, ou pelo menos do que o corrupto japonês? Ou será que, ao chorar, o corrupto espera de alguma maneira se mostrar humano e conquistar a simpatia dos possíveis algozes?
F. ARRANHAPONTE: Um corrupto se suicidar seria um imenso avanço institucional. Mas não creio que eu viva para ver isto no Brasil.



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